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Gritos mudos

Texto: NUNO GALOPIM

Retomando ideias de uma curta de 2011, o realizador ucraniano Myroslav Slaboshpytskiy apresenta em “A Tribo” um tratado sobre a violência que a exclusão pode gerar que poderia ter ido mais longe se a realização não resvalasse para o tom visual do realismo social.

Não há diálogos (apenas em linguagem gestual e mesmo assim sem legendas). Não há banda sonora musical. Não lhes sabemos os nomes. Não sabemos exatamente o que dizem… Mas, através de uma câmara que parece segui-los para todo o lado, observamos o que acontece. E é coisa violenta. Crua. Silenciosa apenas na aparência. Porque há gritos lá por dentro.

A Tribo, do ucraniano Myroslav Slaboshpytskiy, foi um dos filmes muito falados entre os que em 2014 passaram pelo Festival de Cannes (sim, há três anos), mas aquela ideia do “mais vale tarde do que nunca” aplica-se aqui que nem uma luva. E, se bem que haja contastes enormes entre o fulgor de uma ideia narrativa poderosíssima e um trabalho de direção de fotografia que é de dieta de ideias ao seu lado, A Tribo é um retrato de vivências excluídas numa sociedade que de igualitária, atenta e justa na verdade nada tem (nem agora nem nos modelos outrora ali vigentes).

A história evolui em torno de um internato que acolhe jovens surdos (e a ideia do quase-gueto que ali vemos, já que ninguém fala durante todo o filme, é desde logo um sinal de um patamar de não-realismo do qual a narrativa depois evolui). Acompanhamos a chegada de um novo aluno que, para não ser mais um excluído, aceita integrar-se num gangue que exerce um poder na melhor tradição bully sobre os colegas e age (pela calada) num submundo em Kiev e nos arredores entre assaltos e prostituição. A morte acidental de um dos rapazes que acompanhava habitualmente as colegas ao estacionamento de camionagem onde elas se prostituem levará o recém-chegado a tomar o seu lugar. Mas o seu envolvimento com uma delas não só rompe códigos da ética que os conduz como abre uma outra frente de problemas ao saber-se que engravidou e quer fazer um aborto… E mais não conto. Mas é tudo menos fofo o que por ali vai acontecendo.

A crueza gráfica nas representações de violência vinca a visceralidade de uma história sobre exclusão, podendo o universo do internato para surdos ser na verdade uma metáfora possível para quaisquer grupos marginalizados pela sociedade. E se por um lado esses jogos de sentidos fazem da trama e da espiral de violência a que assistimos um daqueles filmes que nos incomodam (no bom sentido), por outro o tom algo descuidado da direção de fotografia e das próprias soluções de enquadramento e de movimento de câmara sugerem um tom de realismo social que contrasta com a ideia, fixando num plano de aparente realidade uma história que, tratada com outro cuidado visual, seria fábula cinematograficamente bem mais pungente. Há uns dois momentos em que o realizador trabalha nesse registo e o filme aí ganha essa dimensão maior (um deles numa sequência íntima entre o par amoroso bem enquadrada e com muro azul pela frente, a outra a poderosa sequência final)… Mas são exceções, não a regra… E, por isso, frequentemente dei por mim a pensar como seria este filme se tivesse sido feito por um Gus Van Sant (nos seus tempos mais inspirados, nos dias de um Paranoid Park ou Elephant) ou pelo cazaque Emir Baigazin (o mesmo de Lições de Harmonia). Porque, com um outro cuidado (igualmente mais metafórico) no pensamento sobre a imagem, as leituras que o filme sugere poderiam ter ido muito mais longe.

“A Tribo”, de Myroslav Slaboshpytskyi, com Grygoriy Fesenko, Yana Novikova e Roza Babiy, está em exibição em Portugal, com distribuição pela Legendmain Filmes

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