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Os dez melhores singles de Prince

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Num momento em que assinalamos a passagem de um ano sobre o desaparecimento de Prince apresentamos contagem de dez singles que permitem evocar memórias maiores da sua discografia.

Não é fácil escolher dez singles de Prince. Não pelo facto de a sua discografia oficial apresentar mais de cem títulos nessa categoria. Mas porque, e sobretudo nos anos 80, e sobretudo entre 1982 e 1987, quase todos os seus singles caberiam num top 10… Por isso foi preciso aqui juntar ao gosto uma necessidade de assegurar a representação de canções de álbuns diferentes (mesmo podendo haver um com mais do que um single… a ver vamos)…

Estes são dez singles de referência numa lista que é naturalmente definida pelo gosto de quem a faz. Mas que, como todo este tipo de listas, nunca é definitiva (amanhã seria diferente)… É assim que funciona a nossa relação com o gosto. E ainda bem…

1º “Sign ‘O’ The Times” (1987)
Aquele que é talvez o criticamente mais aclamado de todos os álbuns de Prince nasceu de uma sucessão de situações menos felizes, representando até o fruto de um primeiro episódio de desentendimento entre o músico e a editora para a qual gravava desde o início da sua carreira, em 1978. Prince começara a trabalhar num álbum mais próximo da sua identidade primordial soul e funk, mas que entretanto deixara à espera numa gaveta. Concentrou depois esforços numa aventura mais solitária, filtrada através da criação de um alter-ego, Camille, figura pela qual Prince fez nascer novas canções. E do lote dos temas novos apresentou à editora uma proposta de álbum triplo que receberia um redondo “não”. É aqui que começa a emergir Sign ‘O’ the Times. E entre as primeiras das novas peças está uma canção, minimalista, de temática social bem evidente e atual, que Prince então puxa para a abertura do alinhamento do álbum que constrói da exclusão de temas dos dois discos que havia entretanto gravado e não editado. Durante a etapa final da digressão europeia uma equipa de filmagem entrou em cena captando o corpo central das imagens que fariam de Sign “O” The Times o terceiro filme de Prince e um dos filmes-concerto mais elogiados dos anos 80.

2º “Kiss” (1986)
Entre 1999 e Sign of The Times (em 1987), não há um disco de Prince que não seja uma pérola maior. Editado em 1986, Parade surge a meio dessa série de álbuns todos eles feitos de raras qualidades. E, tal como o fora Purple Rain (1984), representa a banda sonora de mais uma investida no cinema, desta vez contudo com Prince a assumir a realização (e, naturalmente, o papel protagonista). O filme (muito fraco, diga-se) deu-nos contudo uma jóia preciosa: a sua banda sonora. Na verdade, editado quatro meses antes de estreado o filme, o álbum Parade (que contém canções e instrumentais que servem as imagens de Under a Cherry Moon) viveu muito bem durante esse intervalo sem o cinema a reboque. E, convenhamos, nunca precisou (nem precisaria) do filme para ser um grande disco. De resto, ouve-se bem melhor sem aquelas imagens de narrativa sem rumo e personagens inconsequentes. A crítica revelou uma maior unanimidade no aplauso por contraste com o anterior Around The World in a Day que tinha dividido opiniões. E Kiss, que se revelaria num dos seus clássicos da fase minimalista, mostrou uma vez mais a capacidade de Prince em encontrar – tal como havia feito em When Doves Cry – o aperitivo mais inesperado e improvável para um caso de sucesso.

3º “When Doves Cry” (1984)
Apesar do sucesso obtido por 1999, Prince estava longe de ser uma estrela ou um artista com retorno garantido para um investimento maior quando fez saber que o seu próximo passo previa não apenas a criação de um álbum, mas também um filme, e que este teria de ser produzido e distribuído por um grande estúdio. A proposta foi tudo menos unânime junto de quem decidia internamente mas, já com alguns responsáveis na estrutura da Warner confiantes na sua visão e possibilidades, a ordem para avançar foi dada. E chegou numa altura não apenas em que Prince estava ainda a levar mais longe as pontes de diálogo com formas e sonoridades ligadas à música pop e rock de então, como num tempo de nova remodelação da banda que o acompanharia não apenas na estrada mas também nas imagens de um filme que, mesmo sendo uma ficção, cruzava os caminhos do protagonistas com alguns ecos autobiográficos, desenhando a construção de uma estrela. Um pouco como, mais de dez anos, antes, David Bowie havia sido ele mesmo o designer da figura em que se transformou. O filme Purple Rain revelou-se um sucesso estrondoso (sobretudo nos EUA). Ao mesmo tempo When Doves Cry, que tinha sido criticado com desdém por um executivo da editora, dava-lhe um número um global, abrindo portas a igual destino de sucesso para um álbum que, ainda hoje, é incontornavelmente visto como um dos melhores de toda a (extensa) discografia de Prince.

4º “Paisley Park”
A longa digressão que levou à estrada o álbum Purple Rain, numa altura em que Prince ascendia à primeira linha do estrelato, abriu terreno a várias descobertas pessoais, desde um novo relacionamento com espaços do jazz a um interesse aprofundado por discos da cena pop/rock em finais dos anos 60, ou seja, tempos caracterizados pelas visões caleidoscópicas do psicadelismo. No alinhamento de Around The World in a Day, o disco que em 1985 nasceu como discreto sucesso de Purple Rain, o psicadelismo lança ideias e desafios – como fica evidente no tema-título ou em Paisley Park (canção que acabaria por dar nome à sua “sede” de trabalho e que conheceria edição em single –, mas não fecha em si as suas resoluções. E, mais ainda do que em qualquer disco anterior, Prince concebe um manifesto de diversidade que encontra na sua voz (e palavras), na guitarra e numa forma de desenhar percussões sintetizadas a coesão que depois sustenta o alinhamento. Para estabelecer um contraponto para com o discp anterior, Around the World in a Day foi lançado com um esforço mínimo de promoção, tanto que até mesmo os quatro singles extraídos do disco – Raspberry Beret, Paisely Park, Pop Life e America – só começaram a entrar em cena cerca de um mês após o lançamento do álbum.

5º “Girls and Boys” (1986)
Estreado em julho de 1986, Under a Cherry Moon é daqueles filmes que podem desencadear em nós uma sensação de vergonha alheia. Sobretudo se formos grandes admiradores de Prince. Devaneio megalómano para afogar 12 milhões de dólares, o filme foi uma inconsequente narrativa com ingredientes de romance, luxo e tragédia, no qual as canções de Prince só ocasionalmente justificam os 98 minutos que sobre ele lançámos o olhar. Rodado entre villas chiques na região de Nice, no sul de França, fez então a estreia de Kristin Scott Thomas numa longa metragem, cabendo à atriz um dos sete Razzies que, merecidamente, conquistaria meses depois. Na verdade há contudo uma sequência memorável entre uma trama e imagens absolutamente inconsequentes. Essa sequência revela os momentos de uma atuação de Prince num espaço provado e corresponde ao teledisco do terceiro single extraído do alinhamento do álbum Parade. Trata-se de Girls and Boys que, mesmo sem ter alcançado o estatuto de êxito global de outros singles de Prince nesta etapa de vida com os Revolution traduz uma das suas mais incríveis abordagens minimalistas aos modelos da canção pop.

 

6. “Cream” (1991)
Em 1991 Prince apresentava-se um primeiro álbum com um novo grupo que tomava por nome New Power Generation, uma expressão inicialmente usada numa das canções de Lovessexy, e que era consideravelmente diferente dos Revolution. Era um disco talvez menos dado ao inesperado da experiência, mas decididamente sólido e capaz de suportar o cunho versátil da música em jogo que, apesar de aberta a vários horizontes, mostrava uma vontade em focar diversas escolas negras, do funk e dos universos da soul ao hip hop. Diamonds and Pearls devolveu Prince a um maior patamar de sucesso, mas revelou um trabalho de polimento em estúdio com um cuidado perfecionista que era, mesmo assim, diferente do que brotava do espírito mais imaginativo que havia habitado os discos criados com os Revolution. Álbum duplo, teve nos singles de avanço Get Off e Cream duas propostas radicalmente distintas, mas ambas capazes de cativar o público de Prince. O primeiro respirava um viço funk e dava ao hip hop um protagonismo até ali inédito na obra de Prince. O segundo, que se tornaria um clássico, devolvia-o a um relacionamento gourmet com a forma da canção pop.

7. “Controversy” (1981)
Na alvorada dos anos 80 Prince sentiu um cada vez maior interesse em levar a sua música para além dos espaços do funk e dos demais universos de genética R&B em que iniciara o seu percurso. E se Dirty Mind já havia revelado sinais evidentes de um interesse pelos ecos da new wave, os trabalhos em curso rumo ao quarto álbum juntariam a uma nova expressão dessa mesma curiosidade uma vontade em aprofundar o trabalho com os sintetizadores. O álbum que editou em outubro de 1981, é na verdade mais um disco de transição do que um momento de chegada a um destino desejado, preparando contudo o terreno para o salto que chegaria, um ano depois, em 1999. Tal como o fora a canção que dava título a Dirty Mind, Controversy era mais uma incursão transformadora sobre o funk, refletindo um cada vez mais profundo papel das teclas na construção de uma identidade que fazia já então de Prince uma voz única. A canção vive liricamente de uma série de olhares que questionam a identidade do próprio Prince, deixando sem resposta as dúvidas que a sua música, imagem e presença levantam em relação à sexualidade ou religião.

8. “1999” (1982)
Tal como já sucedera antes, da insatisfação de Prince perante o que viveu em palco durante a digressão que acompanhou o lançamento de Controversy (1981) surgiu uma vontade em renovar o grupo de músicos com quem poderia dar vida a novas canções. Estas, contudo, nasceram uma vez mais de um trabalho solitário feito durante meses a fio, entre a primavera e o verão de 1982, no estúdio que tinha montado na cave da sua casa. Uma das principais marcas distintivas das novas canções era a presença bem mais evidente de uma caixa de ritmos que, usada pontualmente no álbum de 1981, se tornava numa das vozes mais marcantes das estruturas de percussão, conferindo-lhes uma alma sintética, mas intensa, que vincava mais ainda o interesse pela exploração de novas máquinas e novos sons que desde Dirty Mind vinham a ganhar protagonismo na sua música. Faltava, como em Dirty Mind e Controversy, uma canção que pudesse traduzir a alma de todo o disco, como se fosse o seu cartão de visita. Chegado a casa, e em apenas um dia, compôs e gravou o tema sugerido. Chamou-lhe 1999. E esse acabaria por ser também o título do álbum (e do primeiro single a dele ser extraído).

9. “Black Sweat” (2006)
Depois de ter editado três álbuns em 2004 (se bem que dois deles apenas em suportes digitais e reunindo algumas canções já com algum tempo de vida), Prince passou o ano de 2005 um tanto afastado das atenções, dedicando algum dos seu tempo à criação de um disco de uma nova protegida, Támar Davis. O silêncio era contudo aparente e, em dezembro de 2005 convocou uma conferência de imprensa na qual anunciou a edição de um novo álbum de estúdio, assim como um acordo com uma nova multinacional (a Universal) pela qual o disco teria distribuição. O álbum, que chegaria na primavera de 2006 com o título 3121, sublinhou o bom momento entretanto sugerido em 2004 pelo impacte de Musicology (de 2004). O disco guardava no alinhamento aquele que é talvez o melhor single de Prince posterior à sua fase de maiores sucessos nos oitentas e alvorada dos noventas. Canção que recorda o Prince mais minimalista da segunda metade dos oitentas, Black Sweat doseia elementos funk e electro e, se editada noutros tempos, teria sido mais um clássico de impacte global.

10. “Batdance” (1989)
Tim Burton estava, em finais dos anos 80, a preparar um regresso da figura de Batman ao grande ecrã e tinha já usado duas canções antigas de Prince para algumas das primeiras sequências filmadas. Gostou tanto do efeito que lançou o desafio: poderia Prince compor alguma música para o filme? Antigo admirador de Batman nos seus dias de infância, Prince rumou aos estúdios Pinewood onde a rodagem decorria. Gostou dos cenários que ali viu. E, mais ainda, de algumas cenas já montadas que então lhe foram mostradas… Aceitou o desafio. Na verdade Tim Burton tinha a intenção de não fazer de Prince o único músico convidado a trabalhar no filme. Mas, entusiasmado, Prince apresentou em pouco tempo um álbum inteiro de novas canções. Batdance, que foi o single de apresentação do álbum com essas canções, mostrava uma peça de extensão invulgarmente longa, pensada em várias partes, como que traduzindo, embora com a figura de Batman na berlinda, uma síntese de muitas das experiências e conquistas realizadas ao longo da década cujo final se aproximava.

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