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O melhor da obra de David Lynch (1.º)

Seleção e textos: NUNO CARVALHO

Quando faltam poucos dias para o regresso de “Twin Peaks” ao pequeno ecrã, selecionamos dez obras fundamentais de David Lynch. Um realizador que se distingue por um universo sombrio, estranho e originalíssimo.

1.º “Mulholland Drive” (2001)
Agora que David Lynch anunciou que Inland Empire (2006) representa o fim da sua carreira como cineasta, resta a terceira temporada de Twin Peaks (que ontem se estreou no canal Showtime, com um episódio de duas horas) e a memória cinematográfica de uma obra que, apesar de alguns especialistas acharem que ficou aquém do que poderia ter sido, foi contudo suficiente para fazer de Lynch um dos realizadores mais relevantes e influentes do cinema contemporâneo. E o clímax dessa obra é Mulholland Drive, o ponto de pérola da sua filmografia. Nascido como um episódio-piloto para uma série rejeitada pela ABC (que o detestou, considerando-o “demasiado negro e arrepiante”), Mulholland Drive foi felizmente salvo por dois produtores e pela companhia francesa Studio Canal para se tornar um exemplar quintessencial do originalíssimo e extremamente criativo universo lynchiano. E revelou duas excelentes atrizes como Naomi Watts e Laura Elena Harring, que aqui dão corpo a duas personagens que vivem um sonho fantasioso que está condenado a despertar para uma cruel e dolorosa realidade. Uma viagem onírica, melancólica, profunda e inesquecível.

2.º “Twin Peaks” (1990-91)
Foi uma série revolucionária quando se estreou, em abril de 1990, na ABC, e tornou-se um fenómeno de culto. Criada por David Lynch e Mark Frost (que na altura era conhecido como argumentista da série Balada de Hill Street), Twin Peaks teve duas temporadas (entre 1990 e 1991) e distinguiu-se pela forma atmosférica, nostálgica e mítica como encenou o mistério da morte de Laura Palmer (e para a qual contribuiu a bela e melancólica música de Angelo Badalamenti). A série mistura vários géneros e condensa um tema muito caro a Lynch: um conjunto de realidades obscuras que vai sendo exposto e que estava escondido sob uma superfície de aparências plácidas e confortáveis. Kyle MacLachlan interpreta uma das personagens centrais, o agente Dale Cooper, que é chamado à pequena cidade de Twin Peaks para ajudar o xerife local a desvendar o caso. Com Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Sherilyn Fenn, Jack Nance, Mädchen Amick, James Marshall, entre outros. Vinte e cinco anos depois, a nova temporada da série estreia-se no próximo domingo nos Estados Unidos, no canal por assinatura Showtime (e em Portugal no dia 28 deste mês, no TVSéries).

3.º Estrada Perdida (1997)
A par de Mulholland Drive e de Inland EmpireEstrada Perdida é o mais lynchiano filme do realizador. Escrito por Lynch e por Barry Gifford, este thriller críptico centra-se num saxofonista de jazz que assassina a mulher após começar a ter suspeitas de que esta lhe é infiel. Na prisão acorda um dia transformado num outro homem. Mais uma vez, o tema do medo é omnipresente, assim como os do ciúme, da paranoia, da confusão de identidades e da obsessão amorosa. David Lynch monta um criptograma visualmente desafiante e com um trabalho extraordinário de sound design, que, juntamente com a magnífica banda sonora (uma das mais inspiradas de Angelo Badalamenti, mas que integra também canções de outros artistas, como o tema de abertura, I’m Deranged, de David Bowie), contribui para fazer deste um dos filmes mais sombriamente atmosféricos do cineasta. David Lynch como realizador de filmes de terror que não encaixam, porém, nos habituais códigos formatados e saturados do género. Com Bill Pullman e Patricia Arquette.

4.º O Homem Elefante (1980)
John Hurt interpreta John Merrick, um homem com o corpo desfigurado devido a uma doença chamada neurofibromatose, e que vive uma vida degradante e miserável como atração de feira na Londres do século XIX até ser resgatado para observação pelo Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins), que lhe garante refúgio no Hospital de Londres e descobre, contra as expectativas iniciais, que Merrick não é atrasado mental mas um espírito inteligente e extremamente sensível. Mas, mesmo depois de ser reconhecido como um homem de inteligência superior, John Merrick nunca deixa de ser tratado como uma aberração, num mundo (e numa sociedade hipócrita como a vitoriana) que valoriza mais o parecer do que o ser. Para além da delicadeza com que é tratado o drama do protagonista, O Homem Elefante evoca também o ambiente infernal da Revolução Industrial, através da belíssima fotografia a preto e branco do mestre britânico Freddie Francis. O filme foi considerado pelos puristas avant-garde como uma “imperdoável” concessão ao cinema mainstream, tendo sido nomeado para oito Óscares (apesar de não ter ganho nenhum).

5.º “Eraserhead – No Céu Tudo É Perfeito” (1977)
Apesar de recorrer com frequência a material subconsciente (o inconsciente é por definição inconsciente, mas há sempre cabeças, como a de Lynch, cujos muros que o separam da consciência são mais porosos), o método de trabalho de David Lynch nunca passa por nenhum tipo de (psic)análise dos conteúdos da sua mente criativa. Bem pelo contrário, fluem como uma corrente da consciência em que o resultado é ao mesmo tempo revelador e enigmático para o próprio realizador. Em Eraserhead – No Céu Tudo É Perfeito (1977), filmado intermitentemente ao longo de cinco anos, o cineasta constrói um pesadelo com contornos kafkianos sobre um homem tímido e naïf (interpretado por Jack Nance) que se vê a braços com as angústias da paternidade. O filme é uma parábola absurdista num cenário de devastação industrial que, como o próprio realizador explicou (e Lynch é muito pouco dado a autointerpretações), resultou dos seus próprios medos e ansiedades relacionados com a experiência da paternidade.

6.º “Veludo Azul” (1986)
Numa crítica do The Washington Post, escrevia-se sobre Veludo Azul, num tom de censura e desagrado, que o filme não era sobre a visão do mundo de Lynch mas sobre ele mesmo e que o cineasta não estava interessado em comunicar mas apenas em exibir a sua própria personalidade. Dizer isto é não perceber muito do que está em jogo na obra de um autor como David Lynch, que nunca fez outra coisa senão comunicar-se a si mesmo e às suas visões (de resto, talvez nada seja tão justo como classificá-lo como um artista neoexpressionista). De facto, Veludo Azul servirá de matriz para as obras posteriores do cineasta, instaurando alguns temas e elementos que se tornariam recorrentes nos seus filmes, como a sociopatia, o sexo como um engodo que leva a caminhos sombrios e tem uma punição terrível, ou o mundo de perversão e pesadelo que se esconde por detrás de uma realidade enganadoramente idílica. Dennis Hopper encarna aqui um dos mais assustadores vilões da história do cinema, um homem que escraviza sexualmente uma cantora de cabaré (interpretada por Isabella Rossellini) e que ameaça a vida do protagonista (Kyle MacLachlan) quando começa a suspeitar do envolvimento romântico deste com a sua sacrificada amante. Também com Laura Dern.

7.º “Uma História Simples” (1999)
Tal como, por exemplo, Picasso sabia desenhar bem apesar de romper depois com as formas mais convencionais (costuma dizer-se que só quem domina bem as regras pode subvertê-las), também Lynch sempre foi capaz de contar uma história mais linearmente narrativa (mais straight, no sentido de uma narração mais convencional), como bem o prova um filme como O Homem Elefante. Baseado na história verídica de Alvin Straight, um septuagenário do Midwest que fez uma viagem de 240 milhas (cerca de 390 km) num cortador de relva para visitar o irmão, com quem estava desavindo, após este ter sofrido uma apoplexia, Uma História Simples é um filme emotivo (sem ser sentimentalista) e que, a seu modo, e apesar da simplicidade de recursos estéticos e narrativos, não trai o habitual espírito de heterodoxia do realizador. Richard Farnsworth (que, com 79 anos, seria nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário) é ótimo como o protagonista inusual de uma pequena odisseia espiritual (e física) que mantém um toque atípico, apesar de ser dos filmes mais plácidos e disciplinados de Lynch. Com Sissy Spacek.

8.º “Duna” (1984)
Antes de David Lynch ser o escolhido para dar forma ao gigantesco romance de 1965 de Frank Herbert, o projeto de Dune, que levaria o produtor Dino de Laurentiis à falência e cujos direitos foram por este adquiridos em 1978, na sequência do sucesso de Star Wars, passou pelas mãos de Alejandro Jodorowsky (cuja versão abortada de dez horas tinha Salvador Dalí no elenco e banda sonora dos Pink Floyd) e de Ridley Scott. Digamos que, quanto ao projeto de Jodorowsky, talvez tenhamos sido poupados a uma acid trip new age incapaz de condensar um dos mais prolixos livros de ficção científica (e ganhámos também uma belíssima banda sonora de Toto e o Prophecy Theme, de Brian Eno). Mas, se integra alguns elementos que fazem lembrar Blade Runner (e até, no caso do barão Harkonnen, Terry Gilliam), a verdade é que esta história de um futuro longínquo e negro em que duas casas reais de planetas distintos entram em guerra pelo controlo da especiaria (uma droga de valor inestimável) existente nas areias do desértico planeta Arrakis, embora sem efeitos especiais muito impressionantes, tem na visão extremamente imaginativa de Lynch (que lhe confere uma dimensão “psíquica” bastante estimulante) o seu grande efeito especial. Foi um desastre comercial, tendo sido também arrasado por boa parte da crítica, mas continua a ser um filme misteriosamente envolvente.

9.º “Um Coração Selvagem” (1990)
Realizado no auge da popularidade de David Lynch – em abril de 1990 começava a ser transmitida na ABC Twin Peaks, uma das mais marcantes séries da história da televisão, e em maio Um Coração Selvagem ganhava a Palma de Ouro em Cannes –, este cruzamento de road movie, história de amor, drama psicológico e comédia violenta, não sendo dos mais interessantes filmes do cineasta, é menos dececionante e superficial do que parece. Na verdade, posto hoje em perspetiva, é até um filme nalguns aspetos “seminal”, na medida em que prefigura uma viragem do cinema independente em direção a uma mais brutal e visceral representação da violência, que teria o seu clímax em Cães Danados (1992), de Quentin Tarantino. Se o clima mental de ansiedade e raiva que a cidade de Filadélfia induziu em Lynch teve expressão em Eraserhead, então também não é alheio à atmosfera deste filme o ambiente que na altura se vivia na América e que culminaria nos motins de Los Angeles de 1992. Entre o hiper-realista e o abstrato, Um Coração Selvagem carrega na nota do cliché e da caricatura quase cartoonesca para falar de um mundo violento, perverso e infernal em que a bolha que envolve o par romântico (Laura Dern e Nicolas Cage) é expressão de um individualismo isolacionista que, acima de tudo, serve como defesa contra um exterior ameaçador. Diane Ladd, no papel da mãe tresloucada da personagem de Dern (e também mãe da atriz na vida real), foi nomeada para um Óscar na categoria de atriz secundária.

10.º “Inland Empire” (2006)
O mais experimental filme de David Lynch desde o incipiente Eraserhead (1977), Inland Empire (2006) abriu ao cineasta novas possibilidades de expressão através do vídeo digital de baixo custo (o realizador filmou com uma camcorder Sony PD150, que custa hoje cerca de 600 euros). O axioma “the medium is the message” podia aplicar-se a este exercício de metalinguagem com uma lógica de bonecas russas em que o filme-dentro-do-filme comenta não só o próprio ato de se fazer como o cinema enquanto jogo compósito (às vezes perigoso) em que realidade, ficção, ilusão e projeções psicológicas se confundem. Muito se poderia elaborar sobre aquele que é um dos mais intricados filmes de Lynch e que melhor exemplifica o adjetivo “lynchiano” que a originalidade autoral do cineasta conquistou por mérito próprio – uma personalidade artística emulada, por exemplo, pelo estimável Monte Hellman em Road to Nowhere – Sem Destino (2010). Mas bastará dizer, em traços gerais, que os pontos fortes do filme são a condição dupla da protagonista (interpretada pela esplêndida Laura Dern), o ambiente de paranoia que se instala e o uso de uma “geografia criativa” que torna Inland Empire uma viagem por uma “interioridade labiríntica” que, como o amor na visão cristã, é feita para nos perdermos.

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