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A era de ISON

Texto: GONÇALO COTA

Depois do lançamento de “Berbin”, cantado em fársi como resposta às políticas de segregação étnica de Donald Trump, o experimentalismo de Sevdaliza permitiu-lhe agora encontrar novas texturas, numa permanente exploração da identidade como múltipla, fragmentada e, acima de tudo, vulnerável.

ISON não é, na sua essência, desintegração. A proposta artística assenta na dialética, diria, e da maneira como nos foi apresentada, quase esotérica, entre a a sua própria personalidade e as 16 faixas que compõem o álbum, como se cada uma delas “representasse experiências de uma qualquer vida passada”, que se reificam, por exemplo, através dos ecos da vivências no Irão, na religiosidade como resposta existencialista, nas consequências da sociedade de consumo ou numa certa a romantização da loucura, fragilidade e do medo – motivo-fetiche desde os tempos do seu primeiro EP, lançado em 2014, The Suspended Kid.

Human é a canção que mais facilmente pode condensar o que quer representar: as sensações de voyeurismo e do julgamento obsessivo com a beleza, extremamente ricas em simbolismo, do teledisco ou a banalidade do corpo humano como motivo lírico, são razões de óbvio interesse, mas é na visceralidade da voz grave e na sensibilidade da construção do instrumental que se compreende o fator diferenciador de Sevdaliza.

Apesar de acompanhar as heranças dos ritmos industriais e sintetizadas de músicas anteriores, subverte a sua trajetória quando a exploração de sonoridades mais orgânicas é muito menos contida. Em algumas vezes converge possibilidades, criando fulgores e pretensões de novos caminhos – como é o caso em Shahmaran na qual, após alguns minutos de um instrumental pesado e sombrio, aparecem, de surpresa, sons que se diluem e invocam imediatamente o espírito das “Mil e Uma Noites” – ou quando introduz arranjos para cordas e piano ou em interlúdios mais tranquilos para criar dimensões cinematográficas em When I Reside ou Angel, já no final do alinhamento.

E por falar em alinhamento: é precisamente aqui, e devido à sua extensão, que ISON perde grande parte do ímpeto. Claramente nasce da urgência de querer mostrar tudo imediatamente, embora uma canção como Marylin Monroe, apesar da interessante composição, já nos foi dada a conhecer em discos anteriores. Já Do You Feel Real e Grace, poderiam surgir repensadas em discos futuros. Seriam dispensadas, dando espaço para amadurecer a dimensão estética do álbum.

“ISON”, de Sevdaliza é uma edição da Twisted Elegance disponível nas plataformas digitais ★★★

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