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A história como uma narrativa habitada

Texto: NUNO GALOPIM

O filme norueguês “A Escolha do Rei” esteve na ‘shortlist’ de nove para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. E acrescenta mais um olhar vivencial aos tempos da II Guerra Mundial, acompanhando o plano pessoal e familiar no momento de uma decisão histórica.

Longe de ser filão esgotado, o universo da II Guerra Mundial continua a surgir nos ecrãs de cinema sob novos e estimulantes pontos de vista. E mais do que as produções de grande aparato e ação o que de mais interessante temos visto nos últimos tempos concentra-se num plano mais pessoal e vivencial. Foi assim com Lore de Cate Shortland, onde através da história de um grupo de irmãos filhos de um oficial nazi, vivemos histórias de uma Alemanha derrotada. Em No Nevoeiro, de Sergei Loznitsa acompanhamos a jornada moral de um homem que sobreviveu a um pelotão de fuzilamento nazi e é erradamente tomado como colaboracionista, aceitando, todavia, o destino que esse erro de julgamento implica. Mais recentemente, em A Primavera de Christine, de Mirjam Unger, voltamos a encontrar outro olhar vivencial sobre a derrota no momento em que o exército russo chega a perto de Viena (na Áustria). A Escolha do Rei, apesar de desviar o foco da narrativa dos espaços de vida do cidadão comum afetado pela guerra para o plano daqueles que têm nas mãos as decisões, não deixa contudo de seguir caminhos semelhantes. Afinal a família real norueguesa é, também, uma… família.

O filme é um retrato fidedigno dos acontecimentos em abril de 1940 quando, após alguns meses vividos sob posição neutral, a Noruega se vê confrontada com um ultimato alemão: ou aceitam a rendição ou a invasão. Monarquia independente desde a aurora do século, embora concedendo ao rei um papel essencialmente cerimonial, a Noruega está na mira dos interesses alemães pelos recursos que dali pode retirar para o esforço de guerra.

O filme de Erik Poppe começa por nos colocar frente os acontecimentos que precedem o ultimato (sob magnífica fotografia em horas noturnas e um ritmo de montagem que sabe manter a pulsação alta sem um frissom de acontecimentos no ecrã), apresentando o contexto. E desde logo sabe não ser maniqueísta ao mostrar que entre os alemães há quem opte pela diplomacia e quem prefira antes a ação pela força. O centro narrativo e emocional do filme está contudo no universo em volta do rei Haakon VII e da sua família. De resto, encontramo-lo, logo nos primeiros planos do filme, na pele de um avô que joga às escondidas com os netos (um deles o atual monarca). E é entre essa dimensão familiar que vivemos a fuga de Oslo perante a ameaça da chegada dos alemães, a deambulação de quinta em quinta e a necessidade de separação quando se torna evidente que o cenário de invasão avança e urge levar os netos para fora do país.

É certo que há no tutano do filme uma narrativa que recorda o episódio em que o rei norueguês transcendeu o espaço de ação política que lhe é constitucionalmente concedido e que, mais firme do que um executivo à beira de um ataque de nervos, a ele cabe a recusa da submissão aos alemães (que custa à Noruega a entrada na guerra). Mas é ao vivermos de perto a dimensão pessoal e familiar das decisões e das consequências que acarretam que A Escolha do Rei acrescenta mais um cativante ponto de vista a um universo de histórias que, assim, nos continua a fazer olhar para o facto de haver gente a habitar os grandes acontecimentos da história.

“A Escolha do Rei”, de Erik Poppe, com Jesper Christensen, Anders Baasmo Christiansen e Tuva Novotny, está em exibição entre nós numa distribuição da Alambique Filmes

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