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O desafio das formas

Texto: NUNO GALOPIM

Ao quarto álbum o projeto Perfume Genius, do norte-americano Mike Hadreas, deixa de ter as fragilidades e forças do músico como objeto e convida-nos a, com ele, partirmos numa aventura de descoberta através de canções desafiantes, num alinhamento tão cativante como um bom livro.

Um dos discos mais esperados para quem segue as franjas mais inventivas da canção popular, No Shape não só junta à obra do projeto Perfume Genius, do norte-americano Mike Hadreas, um novo passo seguro como é daqueles raros discos nos quais o título desde logo nos coloca perante uma ideia que o todo concretiza. No oposto do que poderia ser um qualquer esforço formalista, o músico mantém firme uma relação com a melodia e com palavras de cara e cortante intimidade, mas deixa claro, logo ao cabo de uns dois ou três temas, que este não é um disco para descrever com um par de palavras e que, pelo contrário, as formas em jogo são mutantes, desafiantes, fazendo-nos mergulhar no alinhamento com o espírito de aventura, descoberta e deslumbramento de quem lê um bom livro ou vê um bom filme. E tudo isto sem ter necessariamente uma narrativa ou um conceito por detrás do projeto: apenas uma belíssima nova coleção de canções.

Depois de uma estreia avassaladora em Learning (2010), disco de fragilidades expostas, no qual encontrávamos um músico a lidar com episódios traumáticos da sua juventude, e de um episódio de continuidade em Put Your Back N2 It (2012), coube ao terceiro álbum, Too Bright, em 2014, a expressão de outros caminhos, nomeadamente os da expressão de uma força e uma confiança encontradas precisamente pelo efeito do impacte dos dois primeiros. No Shape não é, como esse, um disco de reação aos efeitos do seu passado recente, mas sim o momento em que, resolvidas e arrumadas as histórias de dor, violência e homofobia de outrora e encontrada uma voz firme, ousada e segura através da música, voltou a apontar azimutes ao desconhecido… E aventurou-se por aí adiante…

No Shape é um disco de quem sabe que tem na canção o destino do seu trabalho. Mas à construção melódica sedutora, a raízes de referências que mantém (como o primordial apelo folk que pontualmente emerge em Sides, em dueto com Wayes Blood) e a um canto por uma voz que não quer esconder fragilidades que são próprias da sua personalidade e vivência, Mike Hadreas junta aqui mais do que nunca o prazer da experimentação no plano dos arranjos, adicionando episódios inesperados. E são esses momentos aparentemente angulosos, rugosos, que “incomodam” (no melhor dos sentidos) o momento do primeiro contacto com as canções, que fazem destas “não formas” um mundo de acontecimentos que convidam ao reencontro, convidando a regressos que vão levantando véus, camadas, ideias. Não fazendo do aparente desconforto coisa confortável. Porque não é o conforto mas sim o desafio que aqui habitam… E num tempo tão cheio de discos previsíveis e de preguiça confortável, nada como quem nos obrigue a parar, escutar e pensar… E assim se confirma em Perfume Genius uma das forças mais criativas do mapa musical desta década. Quantos têm quatro álbuns de cinco estrelinhas em tão pouco tempo?…

“No Shape”, de Perfume Genius, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais num lançamento da Matador Records ★★★★★

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