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Anjos do universo

Texto: NUNO CARVALHO

“Corações de Pedra”, a primeira obra de Gudmundur Arnar Gudmundsson, que ganhou o Queer Lion no Festival de Veneza de 2016, conta a história de um amor impossível entre dois adolescentes de uma vila piscatória islandesa.

Corações de Pedra, do islandês Gudmundur Arnar Gudmundsson, estreia-se em Portugal pela mão da Cinema Bold (chancela da Alambique Filmes) e na sequência da iniciativa europeia Scope 100, lançada pela distribuidora em novembro do ano passado, em que uma comunidade de cem cinéfilos portugueses foi convidada a assistir a sete filmes europeus de boa qualidade mas com dificuldades de inserção no mercado e a eleger um para se estrear entre nós. A escolha recaiu sobre esta primeira obra islandesa, e é preciso dizer que foi uma ótima escolha, marcada pelo bom gosto. De resto, Corações de Pedra foi o primeiro filme da história do cinema islandês a ser selecionado para o Festival de Veneza, onde ganhou o Queer Lion na edição de 2016.

O filme tem como cenário uma vila piscatória da costa leste da Islândia e centra-se em dois adolescentes que vivem um verão marcado pela paixão. Thor (Baldur Einarsson) e Kristján (Blær Hinriksson) são amigos inseparáveis, o primeiro um rapaz de 14 anos com um rosto de querubim e que tenta conquistar o coração da rapariga pela qual está enamorado, o segundo um potencial quebra-corações loiro e bem-parecido, apesar de tímido e introvertido, e que nutre um afeto especial pelo amigo. Mas, à medida que Thor se vai aproximando da rapariga de quem gosta, Kristján, que vive a sua paixão por Thor em segredo, vai acumulando uma dose de frustração e desespero que terá sérias consequências.

Corações de Pedra não pretende ser um filme inovador ou disruptivo, apostando antes em contar com pormenores singulares uma história que já vimos muitas vezes retratada, nomeadamente no circuito dos festivais queer. Mas, em vez de propor um estafado “gay boy likes straight boy”, injeta alguma energia nova num filme que acaba por ser um “straight boy is liked by gay boy”, mudando a perspetiva ao pôr no centro da ação o rapaz heterossexual e não narrando a história do habitual prisma narcísico em que o eixo em torno do qual gira a ação é invariavelmente a personagem gay. Notável é também a forma como Gudmundsson aproveita o lado agreste e bruto da paisagem e do clima para a utilizar como uma espécie de “dependência analógica” dos sentimentos difíceis de sentir e das emoções insulares e duras experimentadas sobretudo por Kristján. No final, fica uma comovente nota de otimismo a ressoar na memória das personagens (e do espectador) de uma história que é, acima de tudo, o retrato de um amor impossível.

“Corações de Pedra”, de Gudmundur Arnar Gudmundsson, com Baldur Einarsson, Blær Hinriksson e Diljá Valsdóttir, estreia hoje com distribuição pela Cinema Bold

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