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Para celebrar o meio século da banda do Sargento Pimenta

Texto: NUNO GALOPIM

A poucos dias de se assinalar a passagem dos 50 anos sobre a edição de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” uma edição comemorativa junta não só uma nova mistura estéreo do disco de 1967 a um conjunto de olhares sobre as sessões de estúdio em Abbey Road.

Não é unânime a sua eleição como o melhor disco dos Beatles, mas é certamente o seu álbum mais emblemático. Editado a 1 de junho de 1967, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band levava mais longe ainda as visões sugeridas no anterior Revolver, confirmando em pleno a abertura de horizontes que se sentira ao escutar, meses antes o single Penny Lane/Strawberry Fields Forever, na verdade duas canções gravadas nas sessões que ajudaram a desenhar os caminhos que conduziram os Beatles a este álbum. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band nasceu após 129 dias de trabalho em estúdio, numa altura em que a estrada não estava mais na agenda dos fab four, estando o seu tempo unicamente concentrado no trabalho criativo entre paredes, máquinas, instrumentos e ideias. Tinham livre acesso a Abbey Road, onde passaram longas horas, muitas vezes fazendo verdadeiras maratonas de gravação pela noite dentro.

A ideia original para Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band partira do facto de não estarem mais a fazer concertos, criando assim uma banda fictícia, o disco representando de certa forma a sua odisseia em digressão. Na verdade nem todas as canções usadas no alinhamento serviram essa ideia narrativa. Lennon, por exemplo, tinha já canções compostas, que em nada se ligavam a esta narrativa que aqui se ia contar. Contudo, a abertura com o tema título e a reutilização da canção quase no final do alinhamento, a ligação da faixa um à seguinte e a encenação criada para a imagem da capa ajudaram a assegurar uma aura conceptual ao álbum. A capa é, de resto, um entre os muitos feitos do álbum, apresentando uma galeria de nomes e referências marcantes. A presença de Stockhausen entre os rostos recortados reflete claramente uma atenção do grupo para com as novas formas musicais (e de trabalho em estúdio) então em curso nos campos da música de vanguarda.

Musicalmente Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band levou os Beatles a um patamar de complexidade formal ainda maior que em discos anteriores. Não só as composições refletiam uma maior abertura a outros géneros e instrumentos (a presença da música indiana, via Harrison, novamente evidente em Within You Without You). Tão determinante quanto esta abertura de olhares aos vários mundos da música foi também o aprofundar do trabalho de exploração do estúdio como instrumento, vincando a importância da tecnologia ao serviço de uma ideia musical. Sem um gravador de oito pistas, que só seria instalado em Abbey Road depois do álbum editado, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band é um exemplo histórico de engenho técnico ao serviço de uma demanda musical. No fim, a visão proposta valeu-lhes um álbum que hoje não apenas é uma referência maior na história da música como representa uma das principais marcas culturais de todo o século XX.

O conjunto de edições que agora assinalam os 50 anos sobre o lançamento de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band não representam necessariamente uma investida pelas faces do arquivo talvez mais desejadas pelos admiradores dos Beatles… Ou seja, ainda não foi desta vez que chegou a disco o mítico (e experimental) Carnival of Light, criado por esta altura mas ainda hoje inédito. A edição comemorativa parte antes de uma nova mistura estéreo do álbum assinada por Giles Martin (o filho do produtor George Martin) que valoriza aqui e ali certos elementos cénicos e dilui alguma da mais óbvia separação de sons pelos dois canais, de certa forma quase ensaiando soluções mais habituais numa mistura em mono.

Os novos lançamentos acrescentam depois olhares sobre os 129 dias vividos em estúdio, recuperando takes das canções incluídas no disco que nos ajudam a fazer retratos sobre várias etapas da criação dos temas. Estes takes, uns instrumentais, outros cantados, são ocasionalmente interrompidos pelas vozes que ali, no momento, comentam o que estão a fazer e para onde deveriam experimentar levar depois a música em que estavam a trabalhar. São particularmente interessantes, além destes momentos de busca e ensaio de ideias (e até de humor, como se ouve com Lennon no take 4 de Being For The Benefit of Mr Kite), os instrumentais de She’s Leaving Home e Within You Without You, que documentam as facetas mais classicista e experimental que o álbum tão bem integrou na linguagem dos Beatles. A mistura estéreo de Strawberry Fields Forever feita em 2015 propõe uma visão mais acelerada do tema que parece antecipar, numa gravação de 1967 o que vinte e dois anos depois seria o festim Madchester…

A mais completa das versões comemorativas é a caixa Super Deluxe em CD que apresenta no disco 1 a nova mistura do álbum (que é comum a todos os lançamentos). Os discos 2 e 3 acrescentam 22 gravações extra das mesmas sessões de estúdio registadas nos primeiros meses de 1967. Muitas delas são inéditas e foram agora misturadas a partir das gravações originais em quatro pistas, sendo apresentadas em disco numa sequência cronológica face às datas das suas gravações. São aqui incluídas as novas misturas em estéreo de Penny Lane e Strawberery Fields Forever. O disco 4 inclui a versão mono do álbum assim como destes dois últimos temas e versões inéditas de She’s Leaving Home, A Day In The Life e Lucy In The Sky With Diamonds (esta era dada como perdida mas foi recentemente encontrada). Os DVD e Blu-ray que surgem nesta caixa maior incluem as misturas novas do álbum e de Penny Lane e Strawberry Fields Forever em 5.1 surround e em áudio HD, assim como material em vídeo, aqui juntando aos filmes promocionais de Strawberry Fields Forever, Penny Lane e A Day In The Life e o documentário The Making of Sgt. Pepper’s, emitido em 1992 e agora restaurado e que inclui entrevistas com Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr e ainda imagens de estúdio, com apresentação de George Martin.

Há uma versão (mais económica) apenas com o disco na sua versão com a nova mistura em estéreo, assim como uma outra, em duplo CD, que junta no disco extra um apanhado representativo dos takes alternativos. A edição em vinil surge num LP duplo, correspondendo o primeiro disco ao álbum nesta nova mistura e o segundo a uma seleção de takes alternativos arrumados segundo a ordem do alinhamento.

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