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Bronx era o sítio

Texto: NUNO GALOPIM

Apesar de cancelada após apenas uma temporada, a série “The Get Down” deixou no pequeno ecrã um retrato ficcionado dos momentos que antecederam a explosão da cultura hip hop. Criada por Baz Luhrman a série convida-nos a uma viagem no tempo à Nova Iorque de finais dos anos 70.

A música pode ser mais do que banda sonora para uma série. E até mesmo mais do que o cenário que lhe serve de palco. E ao tornar-se na matéria prima que define o contexto, a narrativa e as personagens, parece estar a abrir na ficção televisiva uma nova frente de trabalho com resultados criativos bem mais interessantes do que aqueles que muitas vezes o cinema nos dá em biopics com mais factos encadeados do que real trabalho de exploração das figuras que vemos e da sua relação com o universo à sua volta que, depois, se projeta na música que nos deram a escutar… Há apenas um senão no meio disto tudo. É que os atuais patamares de investimento na ficção televisiva são consideráveis e a ordem para que as séries avancem para segundas temporadas – e, assim, vidas mais longas – só acontece se o retorno em audiências corresponder ao desejado. E a verdade é que as duas grandes séries que o último ano nos deu a ver, ambas baseadas em momentos da história musical de Nova Iorque, acabaram canceladas ao cabo da primeira temporada. E é pena que, sobretudo com The Get Down, a história não nos permita ter sequer chegado aos anos 80 e a um momento em que o fenómeno que emergira numa cultura de bairro, localizada, ultrapassou as suas fronteiras para depois conquistar o mundo.

Meses depois de, através de Vinyl, termos experimentado – via HBO – um mergulho nas memórias rock’n’roll da Nova Iorque dos anos 70, uma outra ficção criada para o grande ecrã voltou a tomar uma das mais criativas épocas da história cultural da cidade como cenário para uma ficção com música na alma. Com Baz Lurhman como uma das principais forças criadoras (tendo ele mesmo realizado o espantoso episódio-piloto) The Get Down toma essencialmente o bairro do Bronx como foco central de uma narrativa que, projetada entre 1977 e 1979, acompanha um tempo em que o disco sound chegou ao patamar das vivências mainstream e o hip hop começa a dar os primeiros passos, a cativar primeiras plateias e a gerar as bases de uma cultura que traduz a identidade do quem, quando e onde dos que a ali estavam a viver.

Tal como em Vinyl há em The Get Down uma permanente vontade em estabelecer pontes entre factos, lugares e figuras reais e o grupo de protagonistas ficcionados através dos quais se projeta uma expressão das realidades em curso. Eles são um aspirante a DJ (que na verdade ganha ainda a vida ao trabalhar para uma pequena mafiosa de bairro), um jovem estudante que tem habitualmente livros por perto e é invulgarmente dotado para a poesia e três irmãos, cujo pai tem ares de jazzman (e toca até o saxofone). O elenco de ficção envolve ainda uma família de um pastor de atitudes conservadoras que não vê o canto senão como um ato ao serviço de fins religiosos, mas que é pai de uma rapariga que sonha ser diva do disco sound… O irmão dele é um político local com ágil ginástica para fazer acontecer o que tiver de ser e que é na verdade um peão jogado por interesses num plano mais acima… Entre eles surgem depois interpretações de figuras reais, quer de DJ fundadores do hip hop, como Kool Herc, Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa ou ED Koch, que foi o autarca da cidade entre finais dos anos 70 e a chegada dos 90.

É entre estas figuras e tendo por cenário uma zona do Bronx que, por aqueles dias, parecia cenário pós-apocalíptico, com prédios arruinados (alguns deles incendiados de propósito para que houvesse quem ganhasse com os prémios dos seguros), as movimentações destas figuras nos colocam num tempo em que o disco sound deixou de ser uma realidade underground e faz os êxitos que se ouvem de dia e dançam de noite. A ele estão ligadas as instituições, dos patrões da noite aos editores e demais profissionais da música. Ao mesmo tempo, entre as ruas emergem artistas que usam as latas de tinta para contar as suas histórias e traçar as suas imagens ora em muros e túneis ou até mesmo em comboios. E, depois, há uma emergente cultura que, com sede original no apartamento de DJ Kool Herc (que é retratado num dos episódios), começa a espalhar-se envolvendo uma forma de usar os discos que leva a concentrar atenções em apenas alguns segmentos das canções, tirando aquilo a que chamam a “parte chata” (ou seja, a cantada), um outro modo de agir perante as palavras da parte de quem tem o microfone nas mãos e também todo um novo quadro de gestos e movimentos que emergem entre quem atua e também quem assiste a estas atuações.

The Get Down tem uma cautela enorme no dosear dos factos musicais entre uma história que, antes do mais, cuida bem da construção das personagens e do contexto que acaba por fazê-las quem são. Mas tem também cautela em não reduzir os acontecimentos a um duelo a preto e branco feito de disco sound e hip hop. E a forma como, discretamente, num dos episódios, nos é lembrado (numa sequência em Manhattan) que o punk está também a fazer história e tem os Ramones entre os seus heróis ou, pouco depois, e com mais cor, som e movimentos, é feita uma incursão numa das primeiras manifestações do vogueing, encontramos em The Get Down uma vontade em lembrar que, afinal, tudo isto estava ligado. Na segunda parte da primeira temporada (com cinco novos episódios revelados já em 2017) junta-se a estes espaços e memórias o mítico Chelsea Hotel, assim como uma referência a Jobriath, figura algo trágica que a indústria tentou moldar como uma resposta americana a Bowie.

Se na primeira parte da temporada (revelada em 2016) acompanhámos a apresentação das personagens, do bairro em que tudo acontece e a génese do movimento hip hop ao juntar o fictício DJ Shaolin Fantastic e a crew que o acompanhava em palco a memórias de ações pioneiras de Grandmaster Flash e Kool Herc (não faltando uma aulsão ao número 1520 da Sedgwick Avenue que é tido como berço do fenómeno), na segunda a evolução da ação aprofunda a exploração da trama de ficção das personagens protagonistas, abrindo como principais linhas de conflito narrativo o modo como certas instituições usam o abraço de uma ideia diversidade embora com outros interesses na agenda, os bastidores da indústria discográfica e, no plano da história do hip hop, a entrada em cena da Zulu Nation e da figura de Afrika Bambaataa. Um dos debates mais interessantes nestes episódios tem a ver com o desfio que uma editora coloca aos Get Down Brothers para que gravem um disco, embora usando uma banda em estúdio e não o gira-discos como ferramenta… A ideia, que contraria a verdade da música que faziam, horroriza os elementos do grupo e motiva-os a procurar os caminhos possíveis para conseguir a rescisão do contrato. Curiosamente, e como notam as palavras que surgem no ecrã no final do último episódio (que nos deixa em 1979), o histórico Rapper’s Delight, dos Sugarhill Gang, que em 1979 deu o primeiro êxito discográfico ao hip hop, foi gravado, além dos MC e dos gira-discos… com uma banda.

O anuncio (bem recente) do cancelamento de The Get Down chega após uma primeira época que encerra o 11º episódio com a sugestão de um final de ciclo. Se fica assim contada, usando uma boa trama de ficção, a pré-história de um movimento que ganhou grande visibilidade nos oitentas e se fez mainstream depois dos noventas, não deixa contudo de ficar no ar que havia neste universo um enorme potencial que fica assim por explorar. Pelo menos com estas personagens, esta trama e este título…

Os 11 episódios que fazem a totalidade de “The Get Down” estão disponíveis no Netflix.

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