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A máscara e o rosto

Texto: NUNO CARVALHO

O realizador Nick Willing consegue revelar neste documentário uma parte da verdadeira face da mãe por detrás da “persona” mediática. Em “Paula Rego, Histórias & Segredos” percebemos que estamos diante de uma mulher profunda, sofrida e enigmática.

Durante anos, o realizador Nick Willing, filho mais novo de Paula Rego, tentou que a mãe aceitasse que ele fizesse um filme sobre ela, mas esta respondia invariavelmente “fuck off!”. Até que as coisas mudaram quando, nos últimos anos, por causa da crise e das dificuldades financeiras da Casa das Histórias, o realizador teve de estar presente em muitas reuniões com advogados e com o presidente da Câmara de Cascais, tendo sido obrigado a reaprender e a melhorar o seu português. Na verdade, nos últimos três anos, Nick Willing passou a falar sempre em português com a mãe, tendo travado com ela muitas conversas em que teve conhecimento de “histórias incríveis” sobre a sua vida. E quando lhe pediu de novo para fazer um filme sobre ela, surpreendentemente a mãe acedeu. E foi assim que nasceu Paula Rego, Histórias & Segredos, um retrato intimista e revelador da face mais verdadeira e desconhecida da prestigiada pintora, que Nick Willing, de 56 anos, filmou ao longo de 18 meses.

Willing diz que o verdadeiro objetivo do filme era “captar, finalmente, a verdadeira voz de Paula Rego”. Isto porque, como também revelou, durante muitos anos a pintora, nas entrevistas que deu, “inventou” muitas histórias à volta dos seus quadros, mantendo sempre uma atitude muito reservada em relação à sua vida privada. Mas foi essa vida, porém, que alimentou todos os seus quadros, que, como confirma o filho, partem sempre de histórias (muitas vezes retiradas de obras literárias) que depois Paula Rego muda, entrando aí a sua história pessoal, íntima, sendo essa “transfiguração” o que, no entender de Willing, lhes dá poder (a pintora pode ter fama de excêntrica, mas, à semelhança do que disse numa entrevista a realizadora alemã Maren Ade, autora de Toni Erdmann – que não era suficientemente louca para fazer filmes a partir de outros filmes –, também não faz quadros apenas a partir de outras obras de arte).

Curiosamente, Paula Rego, Histórias & Segredos ajuda bastante a desconstruir a persona naïf que conhecemos através das múltiplas aparições mediáticas da pintora. E é curioso também verificar que a artista parece muito mais “normal” e “séria” quando fala em inglês do que quando se expressa em português, em que tende mais para a composição de um “boneco”. Mas a verdade é que Paula Rego se sente bem no meio dos bonecos. De resto, é a própria que a dada altura deste documentário diz que gosta mais da ideia de fazer bonecos do que de fazer arte, porque fazer arte é “repulsivo”. Uma frase que só vem confirmar mais uma vez que os verdadeiros génios artísticos são humildes e não fazem a conversa pretensiosa e irritante que tenta convencer os outros de que são representantes da “grande arte”.

Paula Rego, Histórias & Segredos é bastante rico em “epifanias” sobre a vida e a obra da pintora, incluindo, para além das imagens da artista a trabalhar no seu ateliê londrino e das entrevistas francas e intimistas que o filho faz à mãe, imagens de vários filmes caseiros que o pai de Paula Rego fez desde 1920 até à sua morte, em 1966, acrescentando outros filmes caseiros feitos pelo próprio Nick Willing desde 1975, e ainda entrevistas com as duas irmãs e o cunhado do realizador, com Lila Nunes (assistente e modelo da artista), com amigos da família e com o ex-presidente Jorge Sampaio (cujo retrato oficial foi feito pela pintora). Mas também é contada a história da “relação complexa” com o marido, Victor Willing, falecido em 1988, bem como os abortos que fez ou o seu historial de depressão (a pintora, agora com 82 anos, diz que viveu sempre deprimida desde que tem memória de si).

De resto, este é também um filme sobre a coragem de uma mulher que, apesar de todo o sofrimento por que passou, seguiu sempre em frente, e, apesar da depressão, da timidez, do fechamento e das inseguranças, teve a coragem de criar (porque é necessária coragem para se ser verdadeiramente criativo). E que foi sempre melhorando e aperfeiçoando a sua obra, como que fazendo fé nas palavras que o marido escreveu na carta que lhe deixou ao morrer: “A maior parte de mim já se foi embora (…) confia em ti mesma, (…) sei que vais pintar ainda melhor.”

“Paula Rego, Histórias & Segredos”, de Nick Willing, está disponível em DVD numa edição da Midas Filmes

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