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“Black Celebration”: a obra ao negro dos Depeche Mode

Texto: NUNO GALOPIM

Lançado em março de 1986, o quinto álbum da banda mostrava uma música mais densa e intensa, traduzindo sinais mais profundos da escrita de Martin Gore mas também ecos de uma época na história de Berlim, cidade na qual este disco foi criado.

O hiato que separou Some Great Reward (editado em setembro de 1984) do álbum seguinte dos Depeche Mode, que chegou às lojas de discos em março de 1986, foi invulgarmente longo para o que eram então os ritmos de edição e os ciclos de estúdio e estrada que cada disco definia por aqueles tempos. Tendo cumprido uma agenda de estrada na sequência na edição de Some Great Reward – que seria documentada em The World We Live In and Live in Hamburg (1985), o primeiro registo ao vivo de longa duração da videografia da banda – os Depeche Mode viveram os meses seguintes entre episódios de alguma concentração de tempo nas suas vidas pessoais e a ponderação de hipóteses de abordagem ao mercado norte-americano (para o qual tinha já sido criado o álbum People are People, usando temas de diversas etapas da sua discografia). Os dois novos singles que lançaram em 1985 – Shake The Disease e It’s Called A Heart – foram integrados numa compilação editada em tempos do competitivo mercado de Natal, com um lançamento norte-americano feito com alinhamento diferente, sugerindo o título (também ele diferente), a ideia de se estar a tentar apanhar notas soltas que eventualmente teriam escapado às atenções. Um pouco como na discografia de várias bandas britânicas nos anos 60, a discografia norte-americana dos Depeche Mode tem assim em People are People (1984) e Catching Up With Depeche Mode (1985) dois títulos que hoje são acepipe desejado por fãs e colecionadores.

O facto de ter passado um ano inteiro sem que um novo álbum de estúdio entrasse em cena permitiu a Martin Gore aprofundar a ideia de uma escrita mais realista, mais pessoal, eventualmente mais sombria. E, depois de terem gravado nos estúdios de Martin Rushent o seu segundo single de 1985, Martin Gore rumou a Berlim e aos míticos estúdios Hansa (então com o muro a passar por perto), onde David Bowie criara Heroes e nos quais, poucos anos depois, os U2 encontrariam o caminho para a sua reinvenção em Achtung Baby.

As maquetes em que trabalhou não encontraram contudo uma reação de entusiasmo quando, chegada a hora de reunir a banda, os quatro músicos deram por si com aquele corpo de canções em mãos. E basta lembrarmos como foi crispado o reencontro dos Beach Boys com Brian Wilson quando este lhes mostrou as canções de Pet Sounds para que se note como é tudo menos invulgar este tipo de choques. O processo avançou, observando-se contudo durante os quatro meses em que os trabalhos ali se arrastaram, um processo de degradação das relações internas que quase ameaçou a estabilidade da própria banda.

Felizmente sobreviveram às tenções. E, também, às visões propostas por Martin Gore. Porque, no fim de tudo, quando em 1986 as canções de Black Celebration chegaram aos ouvidos de todos mostravam como o som e a escrita dos Depeche Mode tinha conseguido evoluir para além das sugestões de um certo realismo pop industrial e político dos álbuns de 1983 e 84 para uma realidade mais pessoal, mais tensa e intensa. E que, além de refletir mais carnalmente as ideias e sensações do seu principal compositor, acaba por ser também um retrato de um tempo de inquietude que a vida berlinense conhecia, com um muro que na verdade sobreviveria por apenas mais três anos.

Ao cantar o desejo e o ciúme sob ângulos de arestas bem evidentes em A Question of Lust, ao refletir sobre a solidão e o vazio que se pode abater sobre qualquer um, mesmo num mundo sobrepovoado, em World Full Of Nothing, ao relatar os quotidianos de quem vive dias negros, Black Celebration propunha canções que procuravam outros sentidos, outras interpretações… e públicos de outras idades. A abordagem minimalista de Fly On The Windscreen, o próprio recurso ao som de uma moto em Stripped, lembrava o gosto pela exploração de sons e espaços, renovavam o fulgor mais experimental de uma das faces da música dos Depeche Mode que assim se mantinha viva. Mas ao mesmo tempo a criação de um claro hino, como A Question of Time (que corresponderia visualmente ao primeiro episódio de colaboração visual com Anton Corbijn), lançava pistas para um futuro num outro patamar de popularidade… E o episódio seguinte não teve, por mero acaso, o título Music For The Masses.

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