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Menina do Planeta Fome, Mulher do Fim do Mundo

Texto: GONÇALO COTA

Elza Soares mostrou-nos este sábado à noite, com o mesmo imperioso de quem conhece a música brasileira como poucos, as vozes dos oprimidos que desconhecem a igualdade e que povoam o imaginário de “Mulher do Fim Do Mundo”.

A imagética é, tal e qual, a mesma que a edição passada do Vodafone Mexefest nos mostrou, desta vez num Coliseu de Lisboa com menos gás: sentada num trono alto, com uma cabeleira em tons garridos, o mesmo vestido preto que se prolonga por todo o palco e, à sua volta, os músicos. E entre eles está o também produtor do álbum Guilherme Kastrup, que completa a restante moldura. Escutou-se alinhamento preenchido em grande parte com músicas do álbum Mulher do Fim do Mundo, vencedor de um Grammy Latino para melhor álbum de MPB, lançado no final de 2015.

A multidimensionalidade daquilo que se ouve (e assiste) num concerto de Elza deve principalmente em três factores: a rouquidão e amplitude vocal da cantora e a facilidade com que se une a confluência de estilos e de linguagens musicais inesperadas, que têm como essência samba e o funk, mas que se misturam com electrónicas e arranjos de rock de forma tão bem condensada e, que por isso criam um ambiência completamente atípica face aos seus trabalhos anteriores. Promovendo um registo futurista e de reinvenção.

Os motivos da lírica, inteiramente em língua portuguesa, razão mais que suficiente para nos confidenciar que também se sente de Portugal, ostentam verdadeiras odes contra o feminicídio, contra a cultura de estupro e de violência doméstica cantado em Maria da Vila Matilde ou pela transsexualidade em Benedita. As composições viajam também na ferida da segregação e discriminação racial, profundamente naturalizadas na cultura brasileira, ou em experiências mais pessoais, desde a dor morte dos filhos e a ligação à mãe.

Por último a maneira como se desenha cada instante para criar um concerto que vai para além da música. O sujeito poético de Metade Pássaro de Murilo Mendes, esta Mulher do Fim Do Mundo, inscreve-se em todos os poros de Elza Soares: como nos olha, como nos fala é ao mesmo tempo melancolia e euforia. A teatralidade com que nos brinda o bailarino e cantor Rubi, que inicialmente se espalha como corpo cheio energia e nos canta um par de canções em dueto é ambivalente à mesma energia com que termina, pousando a cabeça cansada no colo de uma cantora, com uma postura tão maternal quanto sexualizada.

Seja nos momentos de jogos de luzes e de panos que antecipam a passagem para o encore ou os espaços para a crítica a Temer (no qual pede ao público para gritar à vontade), a maneira como não esquece o passado, nem as vivências da cultura publica, deixa num certo desconforto quem a vê, fazendo-nos pensar nos privilégios sociais que parecem tão óbvios e incontestáveis, num concerto tão catártico como capaz de expressar humanidade. A aclamação foi mais que evidente, porque apesar de como diz a música o que que se quer é “sambar”, é importante neste momento da história pensarmos enquanto sociedade. Elza Soares veio ajudar-nos um pouco mais a fazê-lo.

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