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Visões americanas

Texto: NUNO GALOPIM

A passagem dos 30 anos sobre a edição do histórico “The Joshua Tree” dos U2 é o mote para uma série de edições especiais que juntam ao álbum de 1987 gravações ao vivo de então, material das sessões de estúdio e novas remisturas que abrem interessantes pontos de vista sobre estas canções.

De repente era como se tudo estivesse a começar de novo… E não duvidemos hoje, três décadas depois, que este desejo em não cristalizar ideias, em vestir a pele do desafio e ousar caminhar por territórios diferentes a cada novo disco foi adubo que fez das várias transformações que os U2 viveram entre as visões cenicamente mais elaboradas ensaiadas logo no primeiro encontro com Brian Eno e Daniel Lanois em 1984 e os sucessivos mergulhos na cultura da comunicação, da imagem e da pop dos noventas, a base de sustentação para que o estatuto global que hoje ainda vivem fosse alicerçado em discos que marcaram o seu tempo não apenas pela adesão popular mas porque juntaram episódios de facto marcantes à história da música popular.

The Unforgetable Fire, que assinalara a primeira (de várias) parcerias em estúdio com Eno e Lanois, tinha levado os U2 para além das linguagens nascidas do fulgor pós-punk, e suas variações, pelo qual tinham brotado Boy (1980), October (1981) e War (1983). Seguiu-se nova etapa de estrada. E das vivências então experimentadas em terras americanas chegaram estímulos que acabaram por definir os caminhos pelos quais tomaria o seu disco seguinte. A esta disposição juntava-se um novo modo de trabalhar a composição que tinha já dado frutos no álbum de 1984 com outro cuidado na escrita das palavras. De resto, e como na altura explicou The Edge ao Melody Maker, a forma como o novo jornalismo de Truman Capote e Norman Mailer mostrara como era possível transportar o leitor para um lugar, inspirou-os a tentar fazer o mesmo com as canções, pelas onde podemos também conhecer familiariadides para com os lugares e as gentes dos textos de Flannery O’Connor ou Tennesse Williams, que então liam em viagem. Reconhecendo o peso sugestivo das imagens, deixaram-se fotografar no deserto de Mojave (na Califórnia) por Anton Corbijn, revelando assim, logo a capa do disco, toda uma geografia americana.

The Joshua Tree, editado em março de 1987, é um álbum profundamente americano. E se na música se sente a presença entre estas canções de ecos de várias expressões da canção popular norte americana, também nos termas e narrativas há histórias americanas (não apenas norte-americanas, e basta ouvir Mothers Of The Disapeared para rumarmos a ecos da história recente da Argentina e do Chile, ou Bullet The Blue Sky, inspirada por uma passagem de Bono pela Nicarágua), mas que não deixam de ser expressas por quatro irlandeses que na verdade então confessaram como fora importante estar noutros lugares para se aperceberem das marcas de identidade que em se carregavam. Não voltam por isso costas a temas e lutas que eram já suas. E em Red Hill Mining Town lembram a (ainda relativamente recente) greve dos mineiros de 1984. Nem deixam também de explorar lugares mais pessoais e emocionais, como em One Tree Hill (onde evocam a memória de um amigo desaparecido) ou With Or Without You (que caminha entre os terrenos do amor).

O sucesso global do álbum – que foi logo anunciado quando o single de estreia With or Without You lhes deu o primeiro número um nos EUA – valeu aos U2 uma histórica capa na Time, vendas que ultrapassaram os 25 milhões de unidades, primeiras vitórias nos Grammys e lançou-os na sua primeira grande digressão por estádios. O futuro dos U2 desenhava-se assim num momento em que o grupo ganhava ao mesmo tempo uma dimensão política que tinha já dado importantes passos anteriores (do entoar de Sunday Bloody Sunday à participação no Live Aid), mas que os via agora mais próximos de causas levantadas pela Amnistia Intercacional e que os tornaria numa das vozes mais interventivas de então em diante. De resto, ao assinalar a passagem dos 30 anos sobre a edição de The Joshua Tree (que neste momento os leva à estrada), eles mesmo notaram analogias entre a América de Reagan que da qual este disco guarda memórias e os tempos presentes.

Além da digressão – que certamente acabará por ser documentada – o momento de celebração do 30º aniversário de The Joshua Tree assinala-se com uma edição comemorativa do álbum. Na versão em CD duplo o disco junta ao alinhamento original do álbum a gravação de um concerto da digressão de 1987 (registada no Madison Square Garden, em Nova Iorque). Uma edição DeLuxe, numa caixa de quatro CD, junta a estes dois primeiros discos outros dois mais. Ao CD corresponde um conjunto (bem interessante) de remisturas criadas este ano para canções do álbum por figuras que não são estranhas à obra dos U2, como Flood ou Daniel Lanois. Não se tratam de remisturas talhadas aos jeitos das pistas de dança, mas antes abordagens a estas canções sob outros pontos de vista, na verdade mais vezes acabando a explorar potencialidades cénicas ou até mesmo soluções definidas por texturas ambientais. A One Tree Hill (St Francis Hotel Remix) e a abordagem ambient de Flood a Where The Streets Have No Name são coisa de requintado travo gourmet, e juntam-se à mistura (igualmente ambiental) que Brian Eno criou para o mesmo One Tree Hill, entre as melhores da obra dos U2. Esta última é uma das peças que podemos escutar no CD4, que inclui os lados B dos singles desta etapa e ainda outtakes das sessões de estúdio de The Joshua Tree. Tudo isto com um livrinho a acompanhar. E assim se faz uma bela reedição.


“The Joshua Tree – 30th Anniversary Edition”, dos U2, é uma edição em 2CD, 4CD ou 7LP da Island Records / Universal que está também disponível nas plataformas digitais.  ★★★★★

Ao mesmo tempo é reeditado num LP em vinil o álbum original, de 1987.

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