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Música para um sistema solar (4)

Texto: NUNO GALOPIM

Os planetas e outros corpos do nosso sistema solar serviram de inspiração a várias criações musicais. E antes do projeto Planetarium houve outras viagens no espaço a ter em conta neste departamento… Uma delas levou Marte a uma canção de David Bowie…

No momento em que chega às lojas de discos o álbum Planetarium, que junta o trabalho de um quarteto formado por Sufjan Stevens, James McAlister, Bryce Dessner e Nico Muhly, mergulhamos no espaço do sistema solar para lembrar outros discos e criações musicais que já o tomaram como protagonista ou cenário…

“Saturn”, do projeto Sleeping At Last
(2016)

Chama-se Ryan O’Neal, vive no Illinois e, desde 1999, tem apresentado a sua música através do projeto Sleeping at Last que, a dada altura cativou a atenção de Billy Corgan (que lhe valeu a ligação por uns tempos à Interscope Records) e lhe valeu já uma colaboração com Van Dyke Parks. Com um ritmo editorial impressionante, tendo vários projetos em curso em simultâneo (que tem o seu site oficial como principal janela de comunicação), o projeto Sleeping At Last acaba de editar todo um álbum dedicado ao sistema solar.

Com o título Atlas (Space) o disco, de 2017, apresenta um conjunto de canções, cada qual tomando por título um dos oito planetas, juntando ainda a Lua, o Sol e… Plutão… Yes!!! Saturn, apresentado ainda em 2016, foi escolhido como “single”, surgindo acompanhado por um teledisco. As canções deste sistema solar cantado navegam entre uma música de afinidade com terrenos “alternativos” algures entre os tons um registo indie melancólico, desejos de elegância orquestral e sonhos de alguma pompa à la Coldplay… Podia ser melhor, é verdade… Mas não deixa de ser mais um exemplo de como o sistema solar que habitamos tem inspirado a música que escutamos.

“Os Planetas”, de Gustav Holst
(1918)

Em 1918, perto do final da I Guerra Mundial, um conjunto de amigos e convidados de Gustav Holst (1874-1934) escutava pela primeira vez, em Londres, Os Planetas, uma suite em sete andamentos, cada qual retratando um dos planetas (excluíndo a Terra) do nosso sistema solar. Uma das mais célebres obras daquela década, esta a suite orquestral assombrou depois, de certa forma, a vida do seu criador, sentindo este que a popularidade da obra quase ofuscara todo o seu restante trabalho. Essa foi talvez a razão pela qual a descoberta de Plutão, em 1930, não o levou a querer acrescentar mais um andamento. Contudo, a “despromoção” recente de Plutão, faz hoje de Os Planetas, novamente, um retrato completo do sistema solar. Na verdade a visão proposta em música nasce de conceitos mais astrológicos do que realmente astronómicos. Holst fazia horóscopos a amigos e criou cada um dos andamentos de Os Planetas (cada qual sobre um planeta), reflectindo mais sobre o seu suposto efeito astrológico na mente humana do que sobre as características mitológicas dos nomes a si associados. Isto para nem falar no conhecimento astronómico, que as sondas Voyager e Cassini-Huygens ainda nem sequer eram sonho…

Em plena década de dez, a música conhecia uma série de revelações e visões que contribuíram significativamente para algumas das opções que definiram muitos dos grandes caminhos seguidos mais adiante. A estreia, em 1912, d’A Sagração da Primavera, desencadeara polémica em Paris, mas abria horizontes desafiantes para a música. Da mesma época, as Cinco Peças para Orquestra de Arnold Schoenberg despertavam novas ideias. É neste contexto que o inglês Gustav Holst, colega de Vaughan Williams e em tempos fortemente influenciado pela música de Ravel, Richard Strauss e Grieg, compõe a suite pela qual o seu nome transcendeu depois o universo dos que acompanham a música clássica. Os Planetas começou por ser composto como um dueto para piano, com o andamento dedicado a Neptuno pensado para um orgão solista, pensando que a distância a que este planeta se encontra e o mistério que o envolvia não jogariam com o som do piano. A ordenação dos andamentos (Marte, Vénus, Mercúrio, Júpter, Saturno, Urano e Neptuno) sugere uma ideia de distância progressiva face à Terra (na verdade Vénus está mais perto, mas enfim…). Neptuno, que encerra a suite, foi a primeira obra da história a ter um fim em fade out. O efeito era conseguido colocando o coro feminino numa sala adjacente, fechando lentamente a porta para a sala de concertos, até que o som distante se confundisse com o silêncio.

“Life on Mars?”, de David Bowie
(1971)

Life on Mars? é um dos clássicos maiores da obra de David Bowie. Tudo nasceu com uma canção clássica. Bowie terá criado (mas nunca gravado) uma letra para Comme d’Habitude, a mesma canção de Claude François e Jacques Ravaux que Paul Anka adaptaria numa outra versão a que chamaria My Way e que Frank Sinatra elevaria depois ao estatuto de verdadeiro standard. A génese de Life On Mars? deverá assim residir uma vontade em fazer, de raíz, uma canção que caminhasse num patamar semelhante. Com a ajuda da linha de piano interpretada por Rick Wakeman e um inesquecível arranjo de cordas assinado por Mick Ronson, Life on Mars? surgiu originalmente no alinhamento de Hunky Dory. A edição no formato de single surgira apenas em 1973, numa altura de consagração de um estatuto de fama global e num tempo em que o álbum Aladdin Sane era o seu mais recente lançamento no formato de LP. A fama global escutou Life on Mars? com mais atenção que nos dias de Hunky Dory e o single tornou-se num dos seus clássicos.

Apesar da referência astronómica feita a Marte (e estávamos até a viver uma fase de relativo desencantamento “marciano” após a visualização das fotos captadas pelas sondas nos anos 60), David Bowie não fala aqui nem do planeta nem de exobiologia. A referência é metafórica. Mas, como tudo em Bowie, o sentido real das palavras é de difícil descodificação mais objetiva. Ao longo dos anos deu-nos várias leituras sobre o significado da canção… Por isso nada como deixá-lo em aberto…

“New Moon on Monday”, dos Duran Duran
(1983)

Depois de sovado na crítica, apesar dos bons números de vendas (sobretudo nos EUA e Canadá), o álbum Seven and The Ragged Tiger (1983) contribuiu para uma relativa perda de terreno do grupo em territórios europeus. O segundo single dele extraído, New Moon On Monday, em nada contrariou a tendência. Apesar de representar uma das melhores canções do álbum, não revelava qualquer potencialidade para se transformar num clássico imediato. Canção pop elegante, com traços de heranças de um sentido de requinte à la Bryan Ferry, representou contudo, como single, o primeiro tiro ao lado do grupo nas vendas desde Careless Memories, em 1981. Anos depois, o seu regresso ao alinhamento dos concertos mostrou que, afinal, a canção sobreviveu à voragem do tempo.

O teledisco, um dos mais caros e inconsequentes da videografia do grupo, contribuiu para alguma perda de visibilidade. O pequeno filme que criaram para promover a canção foi mais um exemplo claro de um tempo de gastos excessivos (e nada úteis) que o grupo revelou na sua agenda de comportamentos jet set entre 1983 e 84. Rodado por Brian Grant na pequena localidade de Noyers, em França, em pleno Inverno, tenta mostrar o grupo como comando rebelde em acção de protesto num estado dominado por um qualquer regime repressivo. Com ares de pompa de cinema, mas sem real história para contar… Melhor a canção, claramente.

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