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Variações para uma manhã de Santo António

Texto: NUNO GALOPIM

Foi numa manhã de Santo António que António Variações nos deixou. Ainda o cheguei a conhecer e tive a possibilidade de, vinte anos depois, poder trabalhar com a sua música. Ficam aqui algumas memórias partilhadas.

Há precisamente um ano lembrava aqui uma notícia que nos chegou numa manhã de Santo António. Foi em 1984… Com apenas 39 anos de idade, e uma obra em disco que com apenas dois álbuns e dois singles marcara já como poucas a história da música portuguesa, António Variações deixava-nos.

A sua visão pop cosmopolita e atual, feita do contacto com o mundo pop/rock, mas talhada por alguém que nunca esqueceu marcas e heranças das vivências minhotas dos dias de maior juventude, criou, juntamente com uma escrita quase aforística, um corpo de canções que ainda hoje cativam atenções e geram descendências.

Lembro-me de o ver na televisão, em 1981, num programa de Júlio Isidro, onde revelou Toma O Comprimido ainda antes de editar um disco. A mesma canção que por esses dias ele levava em maquete à Rádio Renascença… Era uma canção rock, intensa, com um bailarino vestido de comprimido ao lado de um cantor de voz e roupas invulgares… Tudo aquilo era intrigante e encantador! Anos depois uma bobina com uma fita com essa mesma gravação passou-me pelas mãos quando chegou a hora de preparar uma nova antologia, A História De António Variações – Entre Braga E Nova Iorque… (EMI, 2006), o CD duplo que finalmente deu vida discográfica a essa essa versão original da canção, tal como a Não Me Consumas, que poderia ter sido o lado B desse single, caso tivesse sido então editado… Mas essa é uma história que fica para uma outra ocasião.

A estreia em disco de António Variações chegou em 1982, com Estou Além, partilhando o single e o máxi o seu alinhamento com uma desafiante abordagem a Povo Que Lavas No Rio, clássico que Amália imortalizou e ali António homenageava. Quem imaginaria que, algum tempo depois, partilhariam os dois o mesmo palco (o da Aula Magna) numa noite de música ao vivo?

Lembro-me, por essa altura, de o ver… Uma vez foi até na minha rua, com ele a passar à porta de minha casa, parando por uns instantes para trocar umas palavras e sorrisos. Era tímido. Mas usava roupas com cores e formas que contrastavam deliciosamente com o nacional-cinzentismo ainda muito em voga entre os que habitavam o vaivém das ruas de Lisboa. É que nem todos os costumes se mudam apenas pelo efeito das revoluções… E nem todas elas gostam de mudar os costumes…

Corri a comprar esse primeiro single. Ainda o tenho, claro! Tal como comprei os álbuns Anjo da Guarda (1983) e Dar e Receber (1984), assim como o single É P’ra Amanhã (1983), nas semanas das respetivas edições.

Deixou-nos demasiado cedo. Mas cedo também as suas canções começaram a ganhar novas vidas. Os Delfins revisitaram a Canção de Engate. E, uns bons anos antes dos Humanos, Lena d’Água era a primeira a cantar alguns dos inéditos que deixara entre as suas cassetes… Cinco inéditos, num mesmo álbum!

Houve ainda mais versões. Estou Além pelas Amarguinhas, num CD single. Um tributo, que chamou nomes como as Três Tristes Tigres, Sérgio Godinho, Ritual Tejo, Sitiados ou os Mão Morta. Uma primeira antologia – O Melhor de António Variações (EMI, 1997) – e reedições, numa delas (a de Dar e Receber) surgindo o primeiro inédito com edição póstuma: Minha Cara Sem Fronteiras… Foi por entre estes discos que comecei a escrever com alguma frequência sobre a música de António Variações, procurando sempre quer saber um pouco mais sobre a figura e o que o inspirara… Tinha já memórias de boas conversas com o Rui Monteiro (que fora meu diretor no BLITZ em inícios dos noventas) que me levaram a querer viajar no tempo para ler as entrevistas publicadas uma boa década antes. Ainda não havia YouTube para ver memórias de conversas e atuações na TV… E entre o arquivo do DN (onde então trabalhava) encontrei esses e outros textos…

Mas mal imaginava que, em 2004, ao perguntar um dia a Paulo Junqueiro (que era então o responsável de A&R da EMI Portugal) o que iriam fazer para assinalar os 20 anos sobre o desaparecimento de António Variações, ia receber por resposta um “dá-me um minuto”, regressando ele, instantes depois, com uma caixa nas mãos… Dei por mim a regressar nesse dia a casa com essa caixa… E uma pilha de nervos. A caixa era… a mítica caixa com as cassetes de António Variações. Aquela célebre caixa de sapatos na qual estavam as memórias dos ensaios em que, com um gravador caseiro, ele mesmo, com palminhas ou pancadas na mesa, por vezes com um teclado pechisbeque ou até mesmo banda, ia criando, por ensaio e erro, as suas canções. Pilha de nervos porque tinha um verdadeiro tesouro (que não era meu) em casa…

Arrumei-as numa das gavetas do grande móvel Olaio (sim, colheita anos 70) que ainda hoje tenho atrás de mim no escritório onde trabalho todos os dias. Dei um número a cada uma, usando essa maravilha do material de escritrório que é o post-it… E comecei a ouvi-las… Uma a uma, metro de fita a metro de fita… E é aí que, entre ensaios de temas que já conhecia, de Estou Além até mesmo Minha Cara Sem Fronteiras, ou aos inéditos que Lena d’Água gravara no saboroso Tu Aqui (de 1989), começam a surgir canções que nunca antes havia escutado… Muda de vida se…, se tu não vives satisfeito, cantava num dele, com uma guitarra a acompanhar a voz. Maria Albertina deixa que eu te diga…., ouvia numa outra, com uma programação rítmica muito simples por acompanhamento.

Em poucas semanas, com todo aquele conjunto de fitas ouvido de fio a pavio e devidamente catalogado, surgira um corpo de canções… Umas já terminadas, outras incompletas, mas que o trabalho de arqueologia, comparando vários ensaios, permitiu levar a um patamar mais definido. Outras apenas vinhetas (e uma das que estava nesse estado era Rugas). Passo seguinte… Um tributo? Não, nada disso! Vamos criar uma banda de raiz. Uma banda pop que junte vozes que podem dar vida a estas canções e com um grupo de músicos que saibam encontrar um diálogo entre as heranças de António Variações e a sua identidade. Ou seja, que defina uma ponte entre tempos e identidades. Todos os convocados gostaram da ideia. Aceitaram à primeira… Juntaram alguns elementos mais e o coletivo ganhou forma, ao mesmo tempo que das maquetes surgia um álbum. Falo dos Humanos, naturalmente.

Já passaram uns anos… Houve depois um disco ao vivo dos Humanos, que documenta os seus quatro concertos. Sim, foram apenas quatro. Depois a tal antologia, que usava finalmente num título aquela expressão “entre Braga e Nova Iorque” que tão bem traduz o que vai na essência da criação destas canções. E uma homenagem no Rock In Rio, juntando num mesmo palco a Gisela João, os Deolinda, Linda Martini e Rui Pregal da Cunha em volta das suas canções… Pena que esta não tenha dado disco…

Nesta manhã, 33 anos depois daquela outra em que, chocado, ouvi a notícia da morte de António Variações, resolvi partilhar estas que são as minhas memórias de um dos nomes que mais admiro na história da música portuguesa. E lembrar a enorme satisfação com que, depois de ter entregue as maquetes catalogadas, escutei, em 2004, o trabalho superlativo que os Humanos delas fizeram nascer. Tenho aqui, neste mesmo escritório, um dos certificados de platina que o disco ganhou. A tripla platina… Juntamente com uma serigrafia da capa de Dead Bees on a Cake de David Sylvian é o que as paredes deixam ter entre discos e livros… Há anos que estão ambos ali pendurados… Ficam bem. Contam histórias.

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