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Música pop para gente crescida

Texto: NUNO GALOPIM

Pop eletrónica de primeira água. E que concilia o tom aparentemente festivo da abordagem instrumental com histórias de solidão que a voz nos canta. É finalmente a estreia num disco de originais a solo de um nome a seguir com atenção: chama-se Dave Depper.

É como aquela velha máxima que diz que água mole em pedra dura tanto bate até que fura… Ou seja, o tempo foi passando, o trabalho foi-se fazendo mas, ano após ano, Dave Depper, apesar de aclamado entre quem o conhecia, não parecia ser mais do que um belo músico de acompanhamento para bandas das diversas famílias indie das regiões mais a norte da frente pacífica norte-americana. Uma vez, porque achou que queria gravar qualquer coisa, pegou no belíssimo Ram de Paul e Linda McCartney e gravou-o numa abordagem sua, de fio a pavio, e de tão satisfeita que ficou, uma pequena etiqueta acabou mesmo por editar essa aventura em disco. Foi em 2011… Um ano depois, por convite de um amigo, aceitou jogar àquele desafio que pede que alguém componha 20 canções em 12 horas… Coisa de fôlego, sobretudo para alguém que estava mais habituado a acompanhar a música dos outros… À Billboard reconheceu em entrevista recente que, na verdade, só compôs 17 canções. 15 delas ficaram algo perdidas entre aquele patamar em que o ensaio e erro tantas vezes nos faz aprender… Mas, como conta, houve duas que o deixaram a pensar. Ficaram ali a marinar. E mesmo depois de se juntar na estrada a Ray LaMontagne e, depois, aos Death Cab For Cutie (banda da qual hoje é membro oficial), não deixou de continuar a procurar entre as pistas que aqueles dois temas lhe tinham deixado como sugestão. Pop eletrónica? Era diferente de tudo o que estava habituado a fazer. Mas porque não?… E ainda bem que resolveu ir pelo caminho mais difícil… Tanto que, entre as mãos, temos agora, e assinado por si, um álbum que é, de pleno direito, candidato a habitar entre os melhores de 2017.

A história de Emotional Freedom Technique – que Dave Depper reconhece ser, apesar da experiência com a versão de Ram, o seu primeiro verdadeiro álbum a solo – começa na verdade nessas duas canções e tem um novo episódio de epifania quando, depois de durante meses a fio na estrada ter composto uma série de temas instrumentais (que lhe deram maior confiança na abordagem a estes terrenos da criação pop), encontrou a forma de expressar a mágoa deixada pela memória do final de um relacionamento numa canção. Era Hindsight / Emotional Freedom Techinque, a chave definitiva para a construção de um corpo de canções capazes de conciliar os rumos da abordagem instrumental que vinha a trabalhar com um estado de alma mais fiel à sua identidade. O contraste entre o tom aparentemente festivo da pop e a melancolia sugerida por histórias de solidão e de amores falhados era o caminho… E logo Dave Depper pensou numa das suas bandas de referência. Os Abba! Sim, os Abba… E sobretudo nos seus últimos discos, quando os sintetizadores ganham protagonismo, tal como as histórias de vida de dois casais de vida conjugal entretanto desfeita.

Outras referências estão ainda nas entrelinhas das canções deste álbum magnífico. Uma delas é Prince, já que Communication, a segunda faixa do álbum, foi composta por Dave Depper no dia da morte do músico, herdando todo um quadro de memórias. Mais adiante surge em Your Voice on The Radio, canção em dueto (com Laura Gibson) que começou por trabalhar com Don’t You Want Me dos Human League como referência mas que, ao notar nas afinidades que afinal tinha com Sound and Vision de Bowie, acabou por tomar outro rumo…

E a verdade é que é entre este conjunto de ingredientes deliciosos que Dave Depper faz um álbum que representa uma das mais cativantes criações na área da pop eletrónica que ouvi nos últimos tempos. É um disco feito de contrastes entre as sugestões aparentemente festivas da música e a vontade de resolver a dor que as palavras e o canto frágil e honesto traduzem. Não faltam aqui ecos de heranças (sobretudo da pop de inícios dos oitentas), mas ao mesmo tempo é um disco pop adulto para o século XXI… Sim, a milhas dos presets usados a rodos entre os disquinhos da moda.

E tem em Summer Days (podem escutar mais abaixo), paradigma maior desse contraste entre o tralálá e outras dimensões menos divertidas que os dias destes meses quentes nos trazem, que encontramos uma potencial candidata a ser a canção deste verão. Curioso que, até aqui, Dave Depper não a tenha escolhido como single.

Que disco delicioso!

“Emotional Freedom Technique”, de Dave Depper, está disponível em LP, CD e nas plataformas numa edição da Ada. ★★★★★

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