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Coração valente

Texto: NUNO CARVALHO

História de uma mulher de meia-idade que recebe um coração de um rapaz em morte cerebral, “Cuidar dos Vivos” consegue fazer um elegante “slalom” para evitar as armadilhas mais frequentes nos dramas médicos.

A terceira longa-metragem da francesa Katell Quillévéré consegue fazer um elegante e subtil slalom entre os obstáculos e armadilhas mais frequentes nos dramas médicos. Longe de ser a versão cinematográfica de um qualquer episódio de séries como Serviço de Urgência e seus derivados, Cuidar dos Vivos (Réparer les Vivants no original) aborda um caso clínico trágico não só com sentido da beleza, mas também com uma atitude ao mesmo tempo compassiva e pragmática perante uma história desesperada e sem solução que, porém, qual semente que morre para depois frutificar, pode representar uma esperança para outrem.

Adaptação do celebrado romance homónimo de 2014 de Maylis de Kerangal, Cuidar dos Vivos conta a história de Simon, um rapaz de 17 anos com bom coração (no sentido figurado e… literal) que, ao regressar com dois amigos de uma madrugada passada a praticar surf numa praia perto de Le Havre, sofre um acidente de viação que o deixa num estado de morte cerebral. Perante a devastadora notícia da morte do filho, que permanece ligado a máquinas que lhe permitem manter os órgãos vitais a funcionar, os seus pais são confrontados pela equipa médica com a hipótese da doação de órgãos, que acabam por permitir. Numa espécie de segunda parte do filme, conhecemos Claire (Anne Dorval, uma excelente atriz que tem sido também musa de Xavier Dolan), especialista em música com 50 anos, mãe de dois filhos à beira da idade adulta, que sofre de uma doença cardíaca degenerativa e que, posta em lista de espera para um transplante, acaba por ter Simon como dador.

Quillévéré utiliza uma espécie de espectro de registos realistas que vão desde pontuais incursões pelo realismo poético e metafórico até ao mais cru realismo documental, nomeadamente na sequência da cirurgia de transplantação do coração “valente” (forte e com valia) de Simon para o tórax de Claire. Mas o grosso deste filme de fina sensibilidade joga-se num registo de realismo equilibrado e verosímil que assenta em interpretações muito sólidas e numa atenção cuidada a cada uma das personagens (mesmo as secundárias têm direito a um desenvolvimento mais aprofundado, surgindo já com um lastro de existência como se fossem pessoas reais e não atores que entram em cena para “cumprirem” o seu papel). Para além de Dorval, destacam-se ainda as interpretações de Tahar Rahim, no papel de um enfermeiro, e de Emmanuelle Seigner, a mãe de Simon. As notas de piano minimalistas e melódicas da banda sonora de Alexandre Desplat acentuam o clima espiritual ao mesmo tempo triste e esperançoso do filme, que nunca resvala para o melodrama deprimente ao manter uma afinação de tom quase perfeita.

“Cuidar dos Vivos”, de Katell Quillévéré, com Anne Dorval, Tahar Rahim, Emmanuelle Seigner, Kool Shen e Gabin Verdet, estreia hoje numa distribuição pela Films4You ★★★★

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