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É mais do que OK. É mesmo muito bom!

Texto: NUNO GALOPIM

Nos vinte anos da edição original de “OK Computer” o álbum de 1997 dos Radiohead regressa numa edição comemorativa que inclui lados B e três inéditos daquele tempo.

Não é nada raro que, entre aquelas conversas nas quais falamos dos discos de que mais gostamos, haver (entre os meus amigos) quem muito frequentemente aponte entre os seus álbuns preferidos dos anos 90 títulos como os álbuns de estreia dos Portishead (Dummy, de 1994) ou Air (Moon Safari, 1998), o segundo dos Nirvana (Nevermind, 1991) ou o terceiro dos Radiohead… E é com este (entretanto mitificado) Ok Computer, editado há vinte anos, de que agora voltamos a falar já que foi hoje editada uma versão comemorativa da passagem de duas décadas sobre o seu lançamento, e pela qual se propõe, mais do que apenas um reencontro com (boas) memórias, um mergulho naquele tempo em que um grupo que finalmente deixava – mesmo apesar das revelações do anterior The Bends, de 1995 — de ser “aquela banda do Creep”…

OK Computer, que traduzia o atingir de um patamar maior na definição de uma demanda que definiu para os Radiohead um percurso criativo em terreno rock ao longo dos anos 90, revelava ideias consideravelmente mais elaboradas do que as ensaiadas nos dias de Pablo’s Honey (1994). Na verdade o caminho encetado pouco depois no EP My Iron Lung (1994) e continuado no mais aprumado e pessoal The Bends definiu os azimutes pelos quais evoluiu a sua música, progressivamente mais atenta às cenografias, aos detalhes, a uma assimilação de outras fontes instrumentais e cada vez mais adepta do desafio. Não será estranho a este processo o papel também cada vez mais interventivo de Nigel Godrich que, depois de trabalhar como engenheiro de som em My Iron Lung e em The Bends, foi chamado ao papel de produtor em OK Computer, descobrindo ali os Radiohead o seu… George Martin.

Nos antípodas das canções de formas mais imediatas e com apelo mais pop (e muitas vezes com travo de hino) que haviam dominado parte significativa da  “geração” brit pop, a música que os Radiohead apresentaram em OK Computer insistia numa bordagem a temas mais pessoais e desconcertantes (isolamento, alienação e outros em patamares emocionais não muito distantes) e investia por tonalidades mais melancólicas e contemplativas. E, curiosamente, nos antípodas das tendências do momento, um álbum que tanto ensaiava construções ambientais contemporâneas como herdava um sentido de ousadia formal quem muitos recordavam com afinidades ao que ocorrera nos tempos do prog, e com os singles Paranoid Android e Karma Police como cartões de visita, o disco tornou-se num clássico popular do seu tempo.

O mais acentuado mergulho nas eletrónicas e pelos caminhos da abstração que a música tomou nos seguintes Kid A (2000) e Amnesiac (2001) – que a meu ver correspondem na verdade aos episódios mais inventivos da obra dos Radiohead – fez com que em OK Computer se juntasse tanto uma ideia de um fim de primeiro ciclo como a de um episódio de transição (aqui entre as formas mais definidas de The Bends e o que chegou logo depois).

Agora, vinte anos depois, voltamos a encontrar OK Computer numa nova edição. Com o sub-título OKNOTOK, o disco junta ao alinhamento original (devidamente remasterizado) o conjunto de lados B apresentados nos singles então editados e acrescenta ainda os inéditos I Promise (uma clássica balada sobretudo acústica que a voz de Thom Yorke molda ao seu jeito frágil e peculiar), Man of War (uma bela canção com trabalho cénico que vai ambiental ao elétrico, mas que na verdade não acrescenta muito a este edifício) e Lift (num comprimento de onda não muito distante da anterior). Se por um lado estas descobertas, vinte anos depois, nos confirmam que os Radiohead souberam levar o melhor que tinham ao alinhamento do disco (e por isso deixaram estas de fora), por outro o prazer da descoberta dos ecos da criação de um álbum histórico ganham com a sua revelação (e vale a pena lembrar aqui que esta gravação de Man Of War na verdade só data de 1998, ou seja, já com OK Computer editado). É para isto que servem estas edições comemorativas, certo?

“OK Computer OKNOTOK”, dos Radiohead, está disponível em 3LP, 2 CD e nas plataformas digitais, em edição da XL Recordings ★★★★★

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