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Um olhar mais amplo sobre uma obra-prima dos oitentas

Texto: NUNO GALOPIM

A primeira grande reedição da obra de Prince após o seu desaparecimento inclui uma suculenta coleção de inéditos e o filme de um concerto da época para nos permitir um olhar mais profundo sobre os tempos de “Purple Rain”.

Para que não caia na tentação de celebrar o que não é inédito, comecemos por lembrar que não é a primeira vez que entramos, na forma de um disco (naturalmente), no tão mitificado arquivo no qual consta que há gravações atrás de gravações de Prince, inéditas, à espera de um dia conhecerem eventual edição. The Crystal Ball, o quádruplo álbum editado em 1988, juntava peças de arquivo. Editado em 1999 como parte do acordo de compensação decidido por ocasião da separação entre Prince e a Warner, o álbum The Vault: Old Friends 4 Sale apresentava um alinhamento que nascia precisamente da recolha de material deste mesmo arquivo. O tal ao qual chamamos “The Vault”. E de resto o título era aí bem explícito. Mais recentemente, já depois da notícia que enlutou os muitos admiradores do artista, a primeira antologia lançada postumamente, 4Ever, incluía Moonbeam Levels, um inédito dos tempos das sessões que geraram o álbum 1999. Agora, numa altura em que se assinala a passagem de 33 anos sobre o lançamento do álbum que elevou Prince ao estatuto de fenómeno global, encontramos aquele que representa o primeiro mergulho alargado de atenções sobre este mesmo arquivo. Não para criar exatamente um “novo álbum”. Mas para juntar uma série de gravações inéditas ao conjunto de temas que encontramos numa absolutamente magnífica reedição de um dos mais importantes álbuns da discografia dos oitentas.

Na sua expressão mais completa esta edição DeLuxe inclui, além do álbum original com o som remasterizado (no CD1) e de uma coleção completa de lados B, versões edit para rádio e remisturas originalmente apresentados nos singles e máxis de então (CD 3), dois discos de material nunca antes editado. Um deles (em suporte de DVD) é Live at the Carrier Dome, Syracuse, NY, March 30th, 1985, um filme, registado durante a digressão que acompanhou o álbum Purple Rain e no qual respiramos o viço e entusiasmo de uma das melhores etapas na vida em palco de Prince, devidamente acompanhado aqui pelos míticos Revolution (que, convenhamos, foram a banda certa na altura certa para o som mais certo). O outro, que corresponde ao CD 2, revela um conjunto delicioso de gravações que, contemporâneas das que geraram Purple Rain, revelam ora os caminhos que conduziram ao álbum de 1984, ora visões mais complexas e elaboradas de temas ali apresentados ou até faixas que, dadas as limitações de tempo que o suporte do LP em vinil impunha, acabaram por ficar de fora…

Como é habitual nestes momentos em que encontramos aquilo que a decisão do artista obrigou a ficar de fora, acabamos por reconhecer que tomou as opções corretas. Porém há aqui algumas pérolas em tudo ao nível do que o álbum e a restante discografia de Prince nesta etapa nos deu a escutar. E entre os momentos mais deslumbrantes deste alinhamento está o díptico Our Destiny / Roadhouse Garden, tema vocalmente partilhado por Lisa Coleman pelo qual se cruzam as linhas delicadas e suaves de uma canção mid tempo que merecia figurar entre os maiores clássicos de Prince e que parece abrir pontes para o que surgiria em disco, um ano depois, em Around The World In a Day. Outra peça maior deste alinhamento revela-se no festim para sequenciadores, outras teclas e alma com ecos do funk que emerge em Possessed, que antecipa uma visão minimalista que Prince exploraria mais tarde. O apelo pop de Velvet Kitty Cat é outro tema no qual sentimos marcas fortes de uma exploração de possibilidades que Prince então talhava entre as eletrónicas. Há canções em plena sintonia com os climas sonoros e temáticos de Pruple Rain, como Electric Intercourse ou Katrina Paper Dolls, um exemplo da sua paixão pelas dinâmicas primordiais do funk em Wonderful Ass e duas jams alargadas em The Dance Electric e We Can Fuck (aqui a lançar pistas que retomaria mais tarde), que traduzem em muito o clima das suas atuações em palco na altura. Por seu lado a versão longa de Computer Blue olha de forma alargada para a canção que já conhecíamos do álbum. Já Father’s Song (aqui a piscar o olho à presença criativa do próprio pai do artista, que assina a composição) leva finalmente a disco um momento da banda sonora do filme.

Apesar do sucesso obtido por 1999, Prince estava longe de ser uma estrela ou um artista com retorno garantido para um investimento maior quando fez saber que o seu próximo passo previa não apenas a criação de um álbum, mas também um filme, e que este teria de ser produzido e distribuído por um grande estúdio. A proposta foi tudo menos unânime junto de quem decidia internamente mas, já com alguns responsáveis na estrutura da Warner confiantes na sua visão e possibilidades, a ordem para avançar foi dada. E chegou numa altura não apenas em que Prince estava ainda a levar mais longe as pontes de diálogo com formas e sonoridades ligadas à música pop e rock de então, como num tempo de nova remodelação da banda que o acompanharia não apenas na estrada mas também nas imagens de um filme que, mesmo sendo uma ficção, cruzava os caminhos do protagonistas com alguns ecos autobiográficos, desenhando a construção de uma estrela. Um pouco como, mais de dez anos, antes, David Bowie havia sido ele mesmo o designer da figura em que se transformou.

O argumento do filme – que, tal como o álbum, se apresentaria como Purple Rain – começou a ser desenvolvido por William Blinn, que na altura estava a conhecer um momento de sucesso através da série televisiva Fame. Os encontros com Prince não foram pacíficos e, numa ocasião, o músico chegou mesmo a abandonar uma reunião a meio… Acabaria por pedir desculpa perante um pedido de afastamento de Blinn, este aceitando continuar depois de Prince lhe ter tocado, no carro, as canções em que estava a trabalhar para incluir no filme. O trabalho seria concluído com Alberto Magnoli, chamado a realizar, criando em Purple Rain a história de um músico em tempo de afirmação de um estatuto de popularidade maior, sugerindo como contexto uma cena musical em Minneapolis – que na verdade estava a ser criada por Prince e os que orbitavam à sua volta – e contando no elenco com figuras como as de Morris Day (vocalista dos The Time) ou com Apollonia, uma nova protegida do protagonista.

O álbum (ou seja, a banda sonora do filme) começara a nascer ainda durante a digressão de suporte a 1999 durante a qual Prince começou a filmar atuações. Um desses momentos registados em áudio e película daria origem à sequência final do alinhamento do disco, ao som de I Would Die 4 U, Baby I’m A Star e Purple Rain, balada longa, épica, que pouco depois se tornaria num dos ex-libris do músico.

1984 deu assim a Prince um momento de triunfo em várias frentes. O filme revelou-se um sucesso estrondoso (sobretudo nos EUA). Ao mesmo tempo When Doves Cry, que tinha sido criticado com desdém por um executivo da editora, dava-lhe um número um global, abrindo portas a igual destino de sucesso para um álbum que, ainda hoje, é incontornavelmente visto como um dos melhores de toda a (extensa) discografia de Prince.

O disco abre, via Let’s Go Crazy, com a sugestão de um hino religioso, que subitamente abre espaço a um furacão rock’n’roll. Fica dado assim o mote para todo um conjunto de choques, cruzamentos, surpresas, que fazem do alinhamento do disco um caso sério da história da música dos oitentas. E até mesmo com repercussões sociais quando, depois de chocada com a letra de Darling Nikki, Tipper Gore liderou um conjunto de ações que culminariam com a obrigação de apresentação de uma nota de alerta para o conteúdo verbal e temático de certas canções. Até aí o disco fez história!

“Purple Rain Deluxe – Expanded Edition”, de Prince & The Revolution, está disponível numa edição com 3 CD e um DVD, também disponível nas plataformas digitais, em lançamento da Rhino/Warner. ★★★★★

Há também uma nova edição num LP em vinil, que corresponde ao alinhamento do álbum original, embora sob o grafismo desta reedição.

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