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Texto: NUNO GALOPIM

A voz dos Bel Canto edita um álbum de canções pelo qual correm ecos da sua relação com a cidade norueguesa onde nasceu e, também, com a memória das primeiras demandas da banda que a revelou há precisamente 30 anos.

Se coube aos A-ha a mais mediatizada e triunfante das vidas pop com berço norueguês nos oitentas, a verdade é que nem só do trio que fez de Take On Me um clássico viveu a produção musical do seu país por aqueles tempos. E se recuarmos precisamente 30 anos, até ao mesmo 1987 que via os A-ha a confirmar o seu estatuto global com o álbum Stay On These Roads, outro nome emergia por ali… Chamavam-se Bel Canto e, através do álbum White-Out Conditions (1987) revelavam uma visão pop desafiante, mais próxima dos rumos que estavam então na mira dos catálogos de editoras independentes como a 4 AD, Les Disques du Crepucule ou a própria Crammed Records, que lhes lançava o disco. Juntando ecos da sua identidade cultural, mais adiante alargando portas à entrada das eletrónuicas, os Bel Canto representaram talvez a mais estimulante obra pop norueguesa antes daquele agitado 2001 em que nomes como os Royksopp, Kings of Convenience, Sondre Lerche, Flunk ou SlowPho, entre outros mais, galgaram fronteiras e se fizeram escutar por todo o lado. Tudo isto para contextualizar a pré-história da carreira em nome próprio da vocalista dos Bel Canto, Anneli Drecker, que acaba de editar um novo álbum, que é já o segundo que edita após ter vivido longos dez anos de silêncio discográfico.

Revelation For Personal Use é uma homenagem a Tromso, a cidade bem a norte na qual Anneli Drecker nasceu em 1969. De resto as palavras que canta não são mais do que poemas de Arvid Hanssen que, traduzidos para inglês (a língua em que preferencialmente fez a sua obra), partem de uma experiência local de culto rumo agora a outras vivências. Tal como sucedera no anterior Rocks And Straws (de 2015), Anneli Drecker volta a compor ao piano e opta por um reencontro com uma instrumentação mais classicista, juntando o mesmo ensemble de músicos e contando uma vez mais com a presença de uma orquestra (a Arctic Philharmonic), que sublinha a partida para uma dimensão cinematográfica que a sua música tomou depois de primeiros passos a solo mais próximos da pop eletrónica.

De certa forma, seguindo as pistas do álbum de 2015, Anneli Drecker parece disposta a retomar uma demanda mais próxima das sugestões do álbum de estreia dos Bel Canto – há quem o coloque sob rótulo dream pop, mas esse é na verdade um conceito de outra época e que se ajusta melhor a outras formas – editado em 1987, afastando-se assim dos rumos que tomara depois de Birds of Passage (1989) e Shimmering Warm and Bright (1992). A voz (que se mantém fiel a um registo e um timbre imediatamente reconhecíveis) une todos os episódios destes 30 anos, agora num reencontro com princípios e marcas de identidade que não escondem uma certa fascinação pelas herança de uns Cocteau Twins, Kate Bush e outros estetas gourmet da música pop mais exploratória. Revelation For Personal Use não está nem de longe no mesmo patamar do melhor dos Bel Canto. Mas sacia as saudades de quem deles se recorda… E pode cativar novas atenções.

“Revelation For Personal Use”, de Anneli Drecker, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Rune Grammofon. ★★★

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