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A poesia do dia a dia

Texto: NUNO CARVALHO

Adam Driver interpreta em “Paterson”, de Jim Jarmusch, um motorista de autocarros cuja rotina diária é uma bênção de tranquilidade, como se viver demasiado fosse mesmo um pecado.

Adam Driver faz jus ao seu apelido no novo filme de Jim Jarmusch, onde é literalmente um condutor (driver), neste caso de autocarros. E o papel não podia assentar-lhe melhor, sendo o seu mais conseguido desempenho até à data. Uma interpretação plena de underacting, em consonância com a vida calma da sua personagem, cujos dias são feitos de uma rotina ritualista e obsessiva com pequenas variações. Uma rotina que, porém, tem as suas compensações, pois, apesar de ter o seu lado monótono e um tanto aborrecido, possui também o reverso da medalha, que neste caso é a bênção de tranquilidade que esse tipo de vida comporta, por oposição a uma mais aventurosa, arriscada e ansiogénica.

Paterson (Driver) vive numa cidade com o seu nome no estado de Nova Jérsia e divide os dias entre o trabalho como motorista de autocarro, a poesia que escreve nos intervalos do seu ofício, o fim de tarde e o serão passados em casa com a companheira, Laura (Golshifteh Farahani), e o cão, Marvin (um buldogue inglês), e as saídas para o passear e beber um copo num bar perto de casa onde aproveita para socializar um pouco e também para se aperceber de que, apesar do carácter repetitivo do seu quotidiano, é um afortunado por comparação com muitos outros. Daí que, quando o seu supervisor, depois de desfiar um rol de “dramas” pessoais, lhe pergunta como vão as coisas, Paterson responda invariavelmente que não tem nenhuma queixa.

Jim Jarmusch consegue tornar atraente e estimulante uma história que, se olharmos apenas à sinopse, parece chata e aborrecida. Mas o cineasta tem o dom sempre bastante apreciável de fazer muito com pouco e de tornar interessante o aparentemente monótono. Sobretudo através da atenção que dá aos pormenores, como se o próprio filme fosse para ser “lido” como se lê poesia, ou seja, saboreando cada palavra como se se tratasse de uma refeição frugal que apela ao nosso instinto de “austeridade” (uma palavra que parece causar hoje urticária à maioria das pessoas mas que corresponde a uma via existencial que, ainda assim, continua a provar ser a melhor para acrisolar o espírito). Por vezes, viver demasiado pode ser mesmo um pecado.

“Paterson”, de Jim Jarmusch, com Adam Driver, Golshifteh Farahani, Nellie, estreia hoje numa distribuição pela Leopardo Filmes ★★★★★

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