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“101”: um disco ao vivo que fez história

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1989 o álbum ao vivo que documenta a Music For The Masses Tour não só regista um momento de grande forma dos Depeche Mode como representa um instante no qual a pop eletrónica conquista maior visibilidade.

A dimensão expressiva das digressões que tinham acompanhado as edições dos álbuns Some Great Reward e Black Celebration (a primeira das duas tendo gerado inclusivamente o primeiro live vídeo do grupo) ajudara a cimentar as qualidades performativas de uma banda que, apoiada pelas ambições (justificadas) de Music For The Masses (1987), se lançou então na sua mais extensa campanha de estrada até então e que, em número de concertos, seria apenas suplantada em meados da primeira década do século XXI com a digressão Touring the Angel. Sob a designação Music For The Masses Tour, arrancou em Madrid em outubro de 1987 e correu recintos em cidades europeias, asiáticas (se bem que aí visitando apenas o Japão) e norte-americanas até chegar, a 18 de junho de 1988, ao Rose Bowl, em Passadena (Califórnia), para o 101º e derradeiro concerto da digressão. E foi nesse dia que o que a multidão ali assistiu conheceu registo, gerando 101, o primeiro álbum ao vivo dos Depeche Mode, editado em março de 1989, tomando como single de apresentação a gravação ao vivo de Everything Counts (originalmente apresentada no álbum Construction Time Again, de 1983), com um final entregue ao coro dos milhares que enchiam a sala, repetindo, já sem os instrumentos nem mesmo a voz de Dave Gahan o refrão, num episódio que depois se repetiria em inúmeras atuações.

Com algumas ligeiras alterações face ao alinhamento da etapa inicial da digressão, e contando mesmo com uma alteração de última hora que optou em juntar o clássico Just Can’t Get Enough a Everything Counts no encore, a sequência de temas que 101 registou não representa um retrato “best of” da história dos Depeche Mode, mas antes a expressão de um retrato de um presente essencialmente centrado em temas dos álbuns de 1986 e 1987, com ocasionais memórias mais remotas e até mesmo a presença de um lado B (Pleasure Little Treasure, originalmente apresentado na outra face de Never Let Me Down Again). Magistralmente gravado e misturado, o disco documenta não apenas as qualidades da visão instrumental proposta pelos Depeche Mode na hora de levar a sua música para lá do estúdio, confirmando igualmente as capacidades de frontman do vocalista e o jogo complementar que os episódios na voz de Martin Gore conferem ao todo.

Ao mesmo tempo que surgiu o álbum os Depeche Mode apresentaram o filme 101, um documentário de D.A. Pennebaker – o mesmo de Don’t Look Back (1967) sobre Bob Dylan e de Ziggy Stardust and The Spiders From Mars (1973), de David Bowie. O filme divide atenções entre as imagens de palco dos Depeche Mode (que correspondem a apenas parte do concerto), sequências de vida de bastidores e, em paralelo, uma aventura que quase antecipa o modelo da reality TV, acompanhando um conjunto de fãs que ganham um concurso para figurar num filme sobre os Depeche Mode e cujo dia a dia vamos conhecendo até que, tal como a banda, chegam à meta (que corresponde ao concerto no Rose Bowl).

101 assinala um momento histórico na vida dos Depeche Mode. É certo que surge ainda sob vigência do tríptico que define o melhor momento da obra da banda – que se materializa entre os álbuns Black Celebration (1986), Music For The Masses (1987) e Violator (1990) – mas não só representa, nas vivências americanas, o definitivo lançamento de pistas que dominariam a vida artística e pessoal dos elementos da banda depois de Songs of Faith and Devotion (1993) como traduz o instante em que fica claro que a pop eletrónica pode ter expressão mainstream para plateias de grandes dimensões não apenas na Europa (onde os grandes pioneiros do género emergiram) mas também nos EUA, a pátria do rock’n’roll. A consciência depois generalizada de uma nova e maior dimensão para a pop eletrónica com o palco como lugar de comunhão para grandes plateias deve por isso muito a esta digressão. 101 é, de certa maneira, o retrato de uma conquista.

O álbum não é a banda sonora do filme. Assim como o filme não é um filme concerto que documente o mesmo alinhamento que o disco nos apresenta. Mas são duas partes de um mesmo retrato, que é claramente um dos mais ricos e diferentes entre os muitos olhares sobre digressões num momento em que o vídeo começou a partilhar com o disco o mercado do registos “ao vivo”. O vídeo não substitui (nem aqui o quer fazer) o disco… E convenhamos que, como live álbum, 101 é o melhor da obra dos Depeche Mode e um dos mais interessantes dos oitentas.

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