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Um flâneur japonês (e o seu cão)

Texto: NUNO GALOPIM

Mais um título magnífico da obra de Jiro Taniguchi está disponível nas livrarias. Com “O Homem Que Passeia” a Devir abre uma série dedicada ao manga… Mas podemos discutir de o modelo de edição adotado será mesmo o melhor…

Um dos maiores mestres do manga deixou-nos este ano. Jiro Taniguchi (1947-2017), que será possivelmente o autor japonês de banda desenhada que mais afinidades foi criando com os leitores europeus (foi sobretudo evidente a paixão com que o circuito franco-belga o acolheu, divulgou e influenciou), regressa aos escaparates das livrarias portuguesas com um dos seus títulos mais aclamados. Originalmente publicado no Japão em 1992 e mais tarde traduzido para francês como L’Homme Qui Marche e inglês como The Walking Man, o livro que agora reencontramos em tradução portuguesa como O Homem Que Passeia faz de uma das mais habituais características das histórias de Taniguchi o seu eixo central: a caminhada.

É frequente encontrarmos nas narrativas de Jiro Taniguchi momentos em que as suas personagens deambulam por ruas de cidade ou caminhos rurais, colocando-os ao mesmo tempo focados em si mesmos e atentos ao espaço ao seu redor e, sobretudo, prontos para aderir ao que o imponderável sobre eles lance naqueles instantes. Não é incomum também nas histórias de Taniguchi haver cães e, claro, os momentos de passeio com os seus donos. Em O Homem Que Passeia as páginas concentram-se sobretudo nas caminhadas do protagonista, muitas delas acompanhadas pelo cão Yuki que, tendo um dia aparecido na casa onde ele vive mais a sua mulher, se torna no seu principal parceiro de andança.

As histórias de Jiro Taniguchi estão algo próximas do cinema do mestre japonês Ozu e expressam uma rara placidez no modo de olhar pequenos episódios do quotidiano, fazendo de rotinas espaço para dar a conhecer gentes e lugares, mas também uma linha de fundo da qual os mais leves acontecimentos emergem com outra capacidade para os vivermos.

A queda de neve, os ruídos e rotinas da cidade, uma chuvada, um amanhecer, o calor tórrido numa tarde de verão, a compra de uma esteira e o seu transporte a casa ou uma incursão noturna por uma piscina são os pequenos nadas de que é feita a vida daquele que caminha por estas páginas. Um texto de Hermano Viana que precede a narrativa sublinha o sentido europeu da melancolia que passa por estes momentos e figuras, notando que esta história (tal como outras de Taniguchi) coloca a “interioridade” das personagens “à flor da pele”. A própria ideia do caminhante que observa, o errante – o flâneur – tem uma história literária com localização europeia em finais do século XIX com narrativas de figuras que deambulavam pelos boluevards de que, de certa forma, estas personagens de Taniguchi partilham heranças, devidamente recontextualizadas.

Esta edição recupera ainda uma entrevista com o autor pela qual se explora uma ideia da “filosofia do passeio”, servindo assim de espaço de reflexão sobre os sentidos que passam pelos livros de Taniguchi, e junta uma biografia e uma pequena galeria de imagens adicionais.

É talvez questionável a opção pela publicação “à japonesa”, com a paginação feita de trás para a frente e os próprios quadradinhos a sugerir o caminho da narrativa da direita para a esquerda. E antes de mais vale a pena dizer que é esta opção é comum em mais publicações internacionais de obras deste autor, pelo que não se trata de uma “ideia peregrina” deste lançamento. Se é verdade que os leitores de manga estão já habituados, por outro as recentes publicações pela Levoir de títulos do mesmo autor como O Diário do Meu Pai e Terra de Sonhos serviu sem este esforço os leitores menos habituados a um esforço que contraria a lógica mais habitual da leitura com que culturalmente fomos educados… Um canhoto também escreve à direita se o obrigarem… Mas exige esforço que contraria o seu modo de ser. E há exercícios de esforço que se dispensam. E a verdade é que, entre nós, desde os dias da escola, a leitura faz-se nos livros e documentos impressos, nas páginas redigidas e nos ecrãs de computador, da esquerda para a direita e da frente para trás. De resto, a forma imediata com que todos aqui apreenderam o que é a “frente” e a “parte de trás” dá para compreender que se opta aqui por um paradigma diferente. Nada contra a diferença. Nem esta é uma opinião bota-de-elástico avessa à expressão da diferença (antes pelo contrário). Mas o esforço adicional na leitura – e confesso que dava por mim a ir contra o rumo dos quadradinhos, tendo de me forçar a ler no sentido oposto – pode reduzir o potencial de um livro tão maravilhoso em chegar a um público mais vasto. E atenção que as faixas etárias que podem potencialmente aderir a Taniguchi não correspondem às de muitas outras edições de manga. E não “acham giro” haver livros assim, só porque é diferente e é assim que por lá se edita… Vão dizer-me que traduzem Saramago no Japão publicando-o com frases a ler da esquerda para a direita? Nah… Pois é. Apesar deste “senão”, aplauda-se a opção da Devir em abrir uma nova coleção nesta área. E, sim, o livro é absolutamente assombroso!

“O Homem Que Passeia”, de Jiro Taniguchi é uma edição em capa mole, de 244 páginas, pela Devir.

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