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Quando 1999 parecia um futuro distante… e com ‘design’

Texto: NUNO GALOPIM

No momento em que desaparece Martin Landau recordamos a série para a qual criou um papel que o inscreveu como figura de culto na história da ficção científica criada para televisão que entre nós a RTP estreou em 1976.

Depois de ter criado uma sucessão de séries de aventuras – usando bonecos e modelos – ao longo de toda a década de 60, Gerry Anderson dava novos passos na ficção científica de imagem real em UFO, que a ITV apresentou entre 1970 e 71. Seria contudo o passo seguinte que, apesar dos momentos já assinados em Thunderbirds ou Captain Scarlet, inscreveria o seu nome entre os maiores da história sci-fi contada no pequeno ecrã.

Num projeto que envolveu várias frentes de financiamento – no Reino Unido e Itália – e tendo desde cedo a vontade de atuar no mercado dos EUA (daí a presença dos atores norte-americanos Martin Landau e Barbara Bain como protagonistas), apresentou em Espaço 1999 (Space 1999 no original) uma das mais interessantes entre as muitas criações que o universo da ficção-científica nos deu antes do ano histórico em que os feitos de Star Wars e Encontros Imediatos de Terceiro Grau transportavam definitivamente estes domínios a plateias bem mais vastas.

A ação centra-se numa base lunar que tem por um lado uma missão científica de investigação e, por outro, a gestão dos lixos nucleares que são enviados da Terra e depositados em zonas da face escura da Lua. É de um problema com o armazenamento destes depósitos que eclode uma reação em cadeia que catapulta a Lua para fora da órbita terrestre e, a bordo, a base Alpha… Estava assim encontrado um modelo alternativo de veículo que conduzisse o homem rumo a outros lugares, ora encontrando povo diferentes ora reflexos e ecos da própria humanidade, revelando a primeira época frequentes momentos de reflexão e diálogo mais próximos de modelos da literatura sci-fi do que de enredos de ação.

Gerry Anderson usou da melhor forma a sua veterania no domínio do trabalho com modelos para criar uma base e naves de design e desempenho cativante. O design e o guarda roupa ajudaram a criar uma imagem (de marca). E um naipe de personagens com espaço para se afirmarem entre as narrativas apresentadas ajudou a criar um corpo sólido que sustentaram duas épocas de produção que, entre nós, causou um fenómeno de popularidade ímpar entre um género até ali sem representação nos pequenos ecrãs nacionais e que, depois desta experiência, teve continuidade numa série de outras exibições, entre elas as de séries como Star Trek, A Nave Orion, Blake’s 7, As Aventuras de Buck Rogers no Século XV ou Galactica, entre algumas outras mais.



As duas épocas são consideravelmente distintas entre si, na segunda notando-se um apertar do cinto no departamento de art direction – há novos cenários, entre eles uma missão de comando mais de dieta –, novas opções no guarda-roupa, uma nova banda sonora sem o travo space disco da original, episódios com mais vitaminas de ação e relações entre personagens mais estereotipadas e, como valor maior, o aparecimento de Maya, uma alienígena com capacidades mutantes que se junta ao núcleo central de personagens. Mas tal como a primeira série havia desencorajado os executivos, também a segunda acabou com um ponto final, este contudo definitivo.

O culto ficou e as repetições alicerçaram um relacionamento continuado com os episódios (entre nós foi nestas repetições que, além da caderneta de cromos, aquelas imagens ganharam cor).

E depois havia aquela banda sonora que, composta por Barry Gray, um habitual colaborador de Gerry Anderson, nos dava logo no genérico um sabor a aventura e disco sound como só em meados dos anos 70 poderia ter acontecido.

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