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Com o medo que o céu nos caísse na cabeça

Texto: NUNO GALOPIM

Uma história de verão para rever em “O Verão do Skylab”, um filme de Julie Delpy que usa como marca de tempo aqueles instantes, em finais dos anos 70, em que se temia a todo o momento a queda de um laboratório espacial…

Um dia em família. Uma família grande, avós, filhos, netos… Podia ser um dia qualquer. Mas estamos em St. Malo, na Bretanha, em julho de 1979. Ou seja, o Skylab – um laboratório espacial da Nasa – está prestes a cair na Terra. E não se fala noutra coisa. Por cá aconteceu o mesmo e havia até quem vendesse chapéus contra a queda do Skylab… Ou seja, dois mil anos depois, algures na Bretanha, alguém viva de novo o maior medo de Astérix e Obélix (cuja aldeia seria por aqueles lados): que o céu lhes caísse em cima da cabeça.

O filme O Verão do Skylab (2011), de Julie Delpy não é contudo um ensaio sobre os medos que a queda da estação espacial semeara por todo o mundo, sobretudo na linha orbital sob a qual deveria reentrar na atmosfera e cair… O Skylab serve mais como uma marca de tempo para um retrato vibrante de um encontro de família em finais dos anos 70 numa França onde, pouco mais de dez anos depois do Maio de 68, ainda vibrava efusivamente com os cenários de confronto político que não eram coisa que se limitasse aos jornais e momentos de campanha eleitoral, porque eram vividos e transportados para os espaços da vida familiar, as fricções ideológicas e diferenças de modos de ver e viver que eventualmente implicam projetando-se assim em volta de uma mesa de almoço (ou jantar), mais minuto menos minuto acabando em discussão e confronto.

Julie Delpy junta, de facto, em torno desta família, uma verdadeira galeria de “tipos”, desde o casal de atores de modos progressistas e voto à esquerda ao ex-militar assombrado e o irmão mais velho que o compreende que seguem caminho oposto e votam à direita. Tudo isto com a avó, que faz 67 anos e pede, por tudo, que não se discuta política à mesa. O confronto ideológico é contudo apenas uma das expressões de tensão que se lançam entre o borrego assado e a sobremesa, as chuvadas repentinas e o sol logo a seguir, as conversas seguindo caminhos que passam por histórias de sexo, de amor e de coisas coisas mundanas, a separação do mundos bem distintos das três gerações retratadas somando um olhar conjunto, observado com grande sentido de humor, que mora na essência do filme.

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