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O verão de 2017 sabe melhor com a visão pop dos Arcade Fire

Texto: NUNO GALOPIM

Será este o disco dos Arcade Fire que vai dividir mais ainda as opiniões? A verdade é que aqui apresentam uma abordagem, e muito à sua maneira, a visões possíveis da canção pop. E desde quando é que isso pode ser mau? Pelo contrário…

Contenção, subtileza, timidez, monotonia… Não são, de todo, palavras que possamos aplicar, em momento algum, à obra dos Arcade Fire, conhecendo, pelo contrário, os opostos de todas elas, um lugar cativo nesta mesma história. A ideia de “surpresa” é outra das variáveis em jogo, a cada novo ciclo parecendo o grupo querer sacudir do seu espaço de trabalho quaisquer sinais de aborrecimento. E, assim, disco após disco, (mesmo tendo Neon Bible servido uma ideia de evolução na continuidade face ao álbum de estreia), têm procurado rotas e destinos diferentes para uma personalidade comum, sempre irrequieta, e com evidente gosto pelo exuberante.

Há quatro anos, apostando numa estratégia “e agora para algo completamente diferente” apresentaram o viçoso e dançável Reflektor (no qual se destacava uma certa contaminação da “escola” DFA) como resposta à visão rock mais clássica do anterior The Suburbs. E agora, no passo que se apresenta na sucessão para a etapa Reflektor (que juntou à discografia da banda canadiana uma das suas melhores peças) eis que não escolhem uma resposta em terreno de oposição mais elétrica ou acústica mas, antes, mais pop, vincando através da versatilidade de timbres da sua paleta instrumental uma visão mais luminosa e polida nas formas para ensaiar um depoimento sobre a era do excesso de informação e de apelo desmedido ao consumo na qual vivemos.

Depois de um início de ano com uma nota política bem evidente em I Give You Power (que ficou de fora do alinhamento do álbum), dedicada à nova administração americana que então tomava posse, os primeiros sinais do que seria o passo seguinte na discografia dos Arcade Fire fizeram-se com o seu mais ostensivo monumento pop até aqui. Everything Now, que se revelaria ser o tema-título do novo álbum, com programações assinadas por Thomas Bangalter, alargava os horizontes pop dos Arcade Fire a uma outra dimensão. A que agora o alinhamento do álbum dá continuidade com outro potencial single – Put Your Money on Me – que corresponde precisamente à segunda colaboração com o músico dos Daft Punk e que é a canção que mais adiante leva a visão pop que a banda aqui apresenta.

Há outras figuras convidadas envolvidas na conceção do álbum, entre elas Geoff Barrow (dos Portishead) que leva a Creature Comfort um diálogo entre a angulosidade das eletrónicas, o fulgor de um hino rock e, uma vez mais, uma alma indie pop como forma identitária mais evidente.

Há, mesmo sob diretrizes pop bem lançadas, um sentido de diversidade entre os temas que encontramos em Everything Now. Peter Pan e Chemistry, por exemplo, assimilam (à la Arcade Fire) ecos da cultura dancehall, sublinhando por outras latitudes de referências um mesmo sentido de luminosidade e cor a esta visão pop. A primeira parte de Infinite Content respira um mais intenso fulgor rock, embora de arestas polidas, abrindo depois a segunda parte da canção a uma trégua de travo quase lounge. Electric Blue valoriza ecos de memórias de teclados dos oitentas… Não falta o apelo orquestral dos arranjos de Owen Pallett na reprise do tema título. E, depois, Signs of Life mostra como, na verdade, há um caminho para aqui chegar que teve os ecos diretos de Reflektor como ponto de partida.

Aquelas lógicas que apontam ora às heranças mais profundas na cultura rock’n’roll ora às visões de diálogo com a linha da frente da invenção eletrónica dançável os destinos mais habituais dos grandes aplausos não encontrarão aqui um candidato evidente para mais um episódio de aclamação nos lugares do costume. O certo desconforto que, sabe-se lá porquê, a palavra pop por vezes lança em jogo, não ajuda a construção de ideias que sigam o apelo ao jeito de rabanho que acha que, quando se atinge um certo patamar de popularidade, a coisa deve ser malandra porque pode estar fabricada e não é tão boa e blábláblá. Ah não? Dos Beatles aos Beach Boys, de Beyoncé a Prince, dos U2 a Bowie, ouvimos já suficientes momentos de criatividade maior que chegaram a uma plataforma de comunicação global. Está na hora de juntarmos os Arcade Fire a essa lista… Everything Now talvez não repita o ineditismo de um Funeral (2004) nem a excelência da visão de síntese que Reflektor propunha em 2013 sobre a relação da cultura indie com a música de dança. Mas é um belíssimo disco pop. Sim, e que bom que a história da pop em 2017 tenha um álbum de uma banda deste calibre a fazer a sua banda sonora. E que bom que é ouvir os Arcade Fire a fazer pop… à sua maneira.

“Everything Now”, dos Arcade Fire, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição Sono Vox / Sony Music. ★★★★

PS. Quando começaram as porradas fáceis de redes sociais sobre este disco, usando como uma das justificações o facto de o tema título soar a Abba, tive desde logo, no sentido contrário, um motivo para gostar mais ainda da canção. Haja herdeiros dos Abba!

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