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“Violator”: uma síntese que abriu as portas ao futuro

Texto: NUNO GALOPIM

É talvez a obra de referência maior na discografia dos Depeche Mode. Fruto da vontade em mudar os métodos de trabalho é um disco de produção cuidada e limpa que assimila aprendizagens recentes e sugere em ‘Personal Jesus’ possibilidades de caminhos futuros.

Uma vontade em mudar os métodos de trabalho abriu caminho para a criação daquele que hoje podemos reconhecer como o disco mais vezes referido como a obra de referência maior na discografia dos Depeche Mode. Martin Gore entregou as maquetes numa forma menos definitiva, deixando em abertas muitas possibilidades para o seu desenvolvimento. E ao invés do que acontecera até então, com sessões de trabalho prévias nas quais era definido o caminho para a sonoridade do álbum, desta vez as maquetes foram o ponto de partida, entregues depois a Alan Wilder que, na companhia do produtor Flood, delas fez emergir sugestões de arranjos e abordagens sonoras que, uma vez aprovadas por todos, geraram as visões pop que fizeram de Violator uma síntese do que fora todo o percurso de demanda dos Depeche Mode ao longo da sua primeira década de vida, apontando depois algumas sugestões sobre possibilidades a explorar no futuro.

Estas últimas, em concreto, surgiram sobretudo na forma de Personal Jesus, canção que terminaram em sessões realizadas em Milão em 1989 e que acabaria editado em single valentes meses antes da chegada do álbum. Mais do que o que sucedera até aqui encontramos nesta canção sinais de assimilação das vivências americanas que tinham vindo a acumular nos últimos anos, ao mesmo tempo assinalando uma vontade em alargar a paleta instrumental a outras fontes e, consequentemente a outras heranças e timbres. Apoiado por um teledisco que os colocava naquele Oeste de fronteira mexicana por perto que habita o imaginário de tantos westerns, Personal Jesus foi o aperitivo certo para o álbum, ainda por cima com toda a carga de histórias americanas então partilhadas via 101, álbum ao vivo e filme que surgiam no compasso de espera entre Music For The Masses (1987) e o seu sucessor.


Editado em março de 1989 o álbum Violator revelaria que as visões americanas de Personal Jesus eram, por enquanto, mais um momento de exceção do que a alma central deste novo corpo de canções. Os novos temas revelavam, antes, um sentido de síntese de experiências anteriores (Waiting For The Night ou Blue Dress são sequelas enriquecidas das memórias recentes de Black Celebration e Music For The Masses), juntando um sentido de contemporaneidade que em parte passa por uma relação com arquiteturas rítmicas abertas a um relacionamento potencialmente mais direto com a música de dança. E aqui temas como World In My Eyes ou Policy of Truth destacam-se cabendo, contudo, a Enjoy The Silence (que na maquete original de Martin Gore era uma balada) a fixação mais marcada da identidade maior aqui alcançada e que reflete ainda o aprofundar das obsessões temáticas já sugeridas nos discos mais recentes. A apurada dimensão estética é aqui, contudo, a que domina todo o edifício sonoro.

Violator é o disco que fecha os oitentas e abre os noventas. É ao mesmo tempo o espaço de síntese das demandas recentes, cedendo a Personal Jesus o papel de sugerir terreno de transição. É um disco de linhas magnificamente definidas, de produção limpa, de ideias bem claras e resultados evidentes. Tornou-se num clássico maior na obra dos Depeche Mode e representou, depois do crescimento global que a banda vivera nos final dos anos 80, o disco certo para cimentar a dimensão planetária que a banda agora conquistara… E sem ceder um instante na sua identidade.

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