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Como Luc Besson perdeu Valérian algures na galáxia…

Texto: NUNO GALOPIM

Talvez seja ainda cedo para se falar dos resultados finais do filme no plano financeiro, mas além do deslumbrante trabalho de criação visual não há argumentos maiores nesta adaptação das aventuras de Valérian e Laureline ao grande ecrã. E há uma opção bem errada na equação.

De Star Wars de George Lucas (o original, de 1977) a O Quinto Elemento (1997) do próprio Luc Besson, a presença de heranças das aventuras de Valérian e Laureline no grande ecrã está longe de ser coisa nova… Porém, para chegar a Valérian e a Cidade dos Mil Planetas o realizador francês Luc Besson teve de esperar vinte anos entre a vontade de o fazer e a capacidade de o concretizar… Fê-lo com um orçamento tão gigantesco que até que eventualmente seja superado pelas receitas (o que pode nem sequer acontecer) será um filme que levantará mais discursos sobre fracasso do que em qualquer outro eventual comprimento de onda… O arranque na verdade está longe de ser coisa promissora. E nos EUA foi até recalculada em baixa a sua expectativa de bilheteira na semana de arranque, se bem que, no fim, a coisa nem foi tanto ao mar nem tanto à terra… E neste capítulo das contas deixemos que o tempo nos dê respostas mais definitivas.

Valérian surgiu representado pela primeira vez em 1967 nas páginas da revista Pilote. Juntamente com Laureline fazem uma ágil dupla de agentes espácio-temporais de Galaxty, a capital de uma grande confederação galáctica no século XXVIII. A bordo de uma pequena nave de serviço que é dotada de tecnologia que lhes permite caminhar rapidamente no espaço e no tempo, os dois agentes caminham de mundo em mundo, contactando com civilizações (umas já identificadas, outras desconhecidas) e procurando resolver focos de conflito, de desequilíbrio e, frequentemente, de injustiça. A noção de diversidade que habita o cosmos e a necessidade em encontrar na diplomacia as artes para um bom entendimento entre todos cruzam os livros. E mesmo pedindo emprestado o título do filme a um desses álbuns – Valérian e a Cidade dos Mil Planetas lembra muito de perto O Império dos Mil Planetas, não é? – na verdade foi a outro que Luc Besson foi buscar inúmeras sequências, personagens e até mesmo sugestões para definir um argumento que não segue assim, à risca, nenhum dos álbuns da série criada por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières.

Publicado em 1975, exibindo já uma dinâmica entretanto encontrada nos álbuns anteriores no plano relação das personagens com os tipos de narrativas que os encontros com os povos de mundos visitados tinham ajudado a definir, O Embaixador das Sombras experimentou uma trama que envolvesse uma ainda mais vasta multidão de seres e de acontecimentos. O Ponto Central, que seria visitado mais vezes por Valérian e Laureline surge pela primeira vez em O Embaixador da Sombras, história que assinala também a primeira presença dos shingouz, pequenos seres alados e com nariz em forma de tromba que aparecem sempre em trio e trocam informação por dinheiro. E com o dinheiro aparece também aqui pela primeira vez o pequeno porta-moedas vivo de Laureline, um transmutador resmungão de Bluxte.

A história em O Embaixador das Sombras leva-nos a esse gigantesco Ponto Central, uma enorme estação espacial que foi crescendo com módulos sucessivamente acrescentados pelos mais variados povos da galáxia, cada qual contudo vivendo confinado ao seu (já que as condições de habitabilidade diferem muito de povo para povo). Valérian e Laureline são ali enviados para acompanhar a chegada do novo embaixador de Galaxy que é contudo raptado (juntamente com Valérian) mal chega ao módulo terrestre, cabendo a Laureline andar depois por Ponto Central em busca de pistas que lhe permita recuperar tanto Valérian como o embaixador que, afinal, trazia uma outra agenda escondida… Os bares e os demais circuitos de bas-fonds visitados por muitas das sequências da saga Star Wars, que tiveram aqui uma boa fonte de inspiração, são um entre as muitos ambientres pelos quais a narrativa depois evolui…

Soa demasiadamente familiar, não é?

Luc Besson, que resolve chamar Apha ao Ponto Central e dá também novos nomes aos shingouz e ao pequeno transmutador de Bluxte, apoia-se no trabalho de ponta da mais recente tecnologia digital para criar os ambientes visuais de toda esta multidão de mundos e de seres que habitam a estação espacial que domina a história. Cruza alguns elementos da narrativa do livro de 1975 (o rapto com o uso de armas que lançam uma camada peganhenta, por exemplo), junta um olhar algo cético sobre a avareza humana (que tem as suas afinidades com o que lemos em Benvindo a Alflolol (de 1972) e define uma história nova que nos começa por mostrar um povo que viva em perfeita harmonia num verdadeiro Éden algures no espaço mas que, por interferência externa, vê o seu paraíso ser destruído… Para não estragar a história a quem a não viu acrescenta-se apenas que, sem surpresa, será em Alpha que Valérian e Laureline serão confrontados com as verdades de factos até aqui desconhecidos…

Se na essência a trama de Valérian e a Cidade dos Mil Planetas não se afasta do livro de estilo das histórias criadas por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, embora em regime substancialmente light, e se visualmente o trabalho de criação dos lugares e seus habitantes é absolutamente deslumbrante (e percebe-se aqui porque Avatar fez Besson sentir que era chegada a hora de avançar) porque falha então Valérian e a Cidade dos Mil Planetas? Porque, mesmo mantendo intacta a personalidade forte de Laureline, transforma sobretudo Valérian num herói que parece saídos de uma boy band… O erro é colossal e transforma a aventura de um agente espacial inteligente, resoluto e já algo experiente numa inexplicácel e até mesmo inconsequente laracha juvenil. A opção pode ser tão letal para o sucesso do filme e para uma eventual sequela como o Jar Jar Binks de O Ataque dos Clones.

A capacidade de levar um filme a várias gerações de espectadores é sempre um desafio… É que nem todos são compatíveis… E aqui se vê como, para agradar aos gregos, perdeu os troianos… A descer a fasquia ao ponto a que levou a moldagem da figura de Valérian nesta sua visão para cinema, Luc Besson falhou redondamente o alvo dos seguidores antigos destas aventuras na BD… Pois é, são mais crescidinhos… E mesmo exuberante nas imagens o filme não repete o barroco camp e bem humorado de O Quinto Elemento… E assim, no meio de tanto mundo, tantas formas e tanta gente, e mesmo com magníficas imagens a bordo, uma sequência incrível com Rihanna (o melhor momento do filme) e uma presença de Herbie Hancock como ator, o filme acabou por se perder…

“Valérian e a Cidade dos Mil Planetas”, de Luc Besson, com Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke e Herbie Hancock, está em exibição.

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