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Com “Designated Survivor” a boa ficção regressou à “west wing”

Texto: NUNO GALOPIM

A série começou por mostrar heranças evidentes de “Homeland” mas depois valorizou mais a sua costela “West Wing”. A figura criada por Keifer Sutherland, entretanto, vincou a força de um contraste entre a realidade e o plano ficção.

Quando chegou aos pequenos ecrãs, Designated Survivor parecia apresentar-se como a mais interessante das herdeiras diretas do universo de ficção que terá hoje Homeland como paradigma maior. O primeiro episódio colocava-nos perante um ataque em tudo inesperado, que destruía o Capitólio durante o discurso ‘State of the Union’, aparentemente não deixando ali quaisquer sobreviventes. Apontado nesse mesmo dia como ‘designated survivor’ (apesar de acabar de ter sido convidado a deixar o executivo para tomar um cargo de prateleira dourada), o Secretário da Habitação uma figura sem “visual” nem “voz” presidencial, terá de se reinventar para não só ter de enfrentar uma comunicação ao país, como os quadros militares e diplomáticos num momento de crise que a todos coloca à prova. E tentar descobrir os responsáveis de tamanho atentado.

O chamado “designated survivor” é uma figura fundamental para a eventual sucessão presidencial nos EUA em caso de calamidade. E existe para que, numa ocasião em que estejam reunidos num mesmo local os mais altos cargos do poder executivo, possa haver alguém capaz de assegurar a continuidade da governação na eventualidade de surgir uma situação que não deixe nenhum deles com vida. Todos os anos, durante a comunicação presidencial conhecida como State of The Union há sempre alguém do executivo que é posto de lado, num local desconhecido e sob vigilância, que fica assim pronto para a eventualidade. Tem contudo de obedecer aos requerimentos mínimos para poder exercer o cargo: ser natural dos EUA, ter mais de 35 anos de vida e mais de 14 deles passados no país. É o que acontece com Thomas Kirkman, personagem que Kiefer Sutherland veste em Designated Survivor, uma produção da ABC que a Netflix apresenta fora dos EUA.

Os primeiros dez episódios tinham mostrado sobretudo uma dinâmica de ação herdeira de Homeland apesar de, mais do que na série protagonizada por Clare Danes, haver aqui uma presença com evidente protagonismo da Casa Branca e dos espaços e figuras ao seu redor… A própria figura de uma agente do FBI como rosto mais avançado da investigação vincava afinidades com Homeland. Havia já um progressivo desviar dos focos de atenção dos espaços de possível ameaça vinda médio oriente para uma mais sinistra conspiração de origem americana, mas é na segunda parte da primeira época (houve um hiato a separar os primeiros dez dos onze episódios finais) que Designated Survivor se demarca do modelo mais próximo de Homeland. Não só define um universo ideológico para esta conspiração que parece mais próximo dos espaços de extremismos que nos últimos anos ganharam outra expressão em várias latitudes, como juntou à narrativa uma mais evidente vontade em explorar as dinâmicas do quotidiano da Casa Branca e da vida política em Washington DC, valorizando de um modo mais consistente a costela West Wing (a brilhante série criada por Aaron Sorkin) que ali estava já desde o início mas ainda não tão profundamente explorada.

Designated Survivor não se livra de ser um híbrido. Mas ao tomar duas referências maiores da ficção televisiva acaba por projetar nos seus episódios duas importantes heranças… Ninguém se importou muito quando os Stone Roses juntaram heranças do psicadelismo à vontade do rock dialogar com a club culture, que era coisa emergente em 1989… Isto para dizer que os híbridos não fazem mal a ninguém…

Voltando a Designated Survivor vale a pena notar que, se por um lado junta esses dois importantes legados, por outro serve de contraste bem claro face a outro colosso do nosso tempo. E basta conhecer o homem honesto que se senta na Casa Oval quando é vestido por Keifer Sutherland para reconhecer as claras diferenças face à figura que Kevin Spacey criou para o seu Frank Underwood em House of Cards. Mais próximo do presidente Bartlett de West Wing, a figura de ficção de Tom Kirkman serve também de bálsamo para, pelos instantes de um episódio, vermos uma Casa Branca entregue em boas mãos. Porque por vezes precisamos da ficção para escapar por uns instantes de uma realidade que se parece cada vez mais com uma assustadora ficção. O discurso de Kirkman no episódio final lembra muito, de resto, o sentido humanista e a eloquência de um Barack Obama.

Os 21 episódios de “Designated Survivor” estão disponíveis no Netflix

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