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Revelações ‘gourmet’ nos bastidores de um álbum esquecido

Texto: NUNO GALOPIM

Acompanhado por dois discos de extras que incluem colaborações com Elton John, gravações de uma sessão para o programa de John Peel e uma ideia (não concretizada) para um intervalo eurovisivo na Estónia, o álbum “Release” revela mais sabores nesta reedição do que no seu lançamento original em 2001.

A perceção que temos de um álbum parte naturalmente do alinhamento final que o disco apresenta. E de do álbum Release, que os Pet Shop Boys editaram em 2001 temos a ideia do “álbum de guitarras” (se bem que muitas delas sampladas ou processadas), a verdade é que ao escutarmos os dois volumes de extras que acompanham a sua reedição sob a designação Further Listening 2001-2004, ficamos perante a sensação de que outras opções havia em jogo e que a vontade em “mudar” ou fazer “algo completamente diferente” se deveu mais a um compromisso na etapa da seleção dos temas a integrar no disco do que a uma etapa criativa fechada num conceito pré-definido.

Há, é verdade, elementos que explicam o tom mais melancólico e menos dançável que atravessa o alinhamento de Release já que em parte este disco nasceu de sessões de trabalho registadas num estúdio entretanto montado pelo grupo numa casa de campo que Neil Tennant havia recentemente comprado no nordeste inglês. A presença de Johnny Marr, com quem já antes tinham trabalhado, não condicionou necessariamente a escrita já que muitas das canções estavam já definidas quando o guitarrista se juntou aos Pet Shop Boys em estúdio. É claro que o caráter beatlesco de um I Get Around (ou como eles mesmo sugerem, uma cação à la Oasis) acaba por soar como um paradigma de identidade de um álbum que escapou aos caminhos mais habituais da música do duo. Mas que, mesmo sendo talvez o menos apetitoso dos seus discos, não deixa de guardar em si alguns momentos memoráveis como o são Birthday Boy, Love is a Catastrophe (um épico de rara eloquência), Home (que teria gerado um single clássico) ou You Choose, que encerra o alinhamento e é simplesmente uma das melhores canções de toda a obra dos Pet Shop Boys.

Os dois volumes de extras com que Release agora é reeditado mostram que este disco nasceu entre uma série de outras composições que ora podiam ter encaminhado o disco num sentido mais próximo de uma pop dançável (havendo mesmo em Time On Our Hands um claro exemplo de uma faceta clubbing que poderia ter gerado um lançamento complementar como Relentless fizera anos antes ao lado de Very) ou até um reencontro com os flirts latinos dos tempos de Bilingual em Between Two Islands, tema que chegou a ser ponderado para uma colaboração – que não se concretizou – com os músicos do coletivo Buena Vista Social Club.

Além dos temas que ficaram de fora do alinhamento de Release este conjunto de memórias que se estendem entre 2001 e 2004 (e que abarcam por isso os lançamentos de Disco 3 e da antologia Pop Art) juntam ainda diversos ecos do trabalho no musical Closer To Heaven com mais maquetes e versões alternativas dessa aventura. Há, em apetitosa estreia em disco, sessões de trabalho com Elton John para um single que acabou por nunca ver a luz do dia segundo se explica no booklet porque a editora dele não gostou), sendo aqui incluídos In Private e uma versão de Alone Again, Naturally (original de Gilbert O’Sullivan), assim como a maquete de Jack and Jill Party, tema de sabor electroclash que compuseram para a voz de Pete Burns. Naturalmente estão incluídas (entre versões finais e de trabalho) memórias de Miracles e Flamboyant, os singles inéditos incluídos em Pop Art.

Igualmente inéditos são as versões gravadas numa sessão para o programa de John Peel, na BBC, de A Powerful Friend e If Looks Could Kill, temas originalmente compostos no início do trabalho conjunto de Neil Tennant e Chris Lowe e que evocam ecos da sonoridade original dos Pet Shop Boys ainda bem próxima de diálogos entre a pop e o hi-nrg, herança que está ainda bem visível em Blue on Blue (gravado neste intervalo de tempo embora usado mais tarde num lado B). A mais apetitosa das revelações (com o devido fio de azeite) chega na forma de Kazak, tema que criaram depois de terem visto uma atuação de cossacos ao som de techno, imaginando o que seria uma visão na linha de Riverdance, mas apontada ao intervalo do Festival da Eurovisão a realizar na Estónia… Não teria sido nada má ideia…

“Release / Further Listening 2001-2004”, dos Pet Shop Boys, está disponível numa caixa de 3CD em edição da Parlophone/Warner ★★★★

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