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Valérian e Laureline, de fio a pavio

Texto: NUNO GALOPIM

A integral das aventuras dos heróis criados por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières em 1967 começa agora a chegar ao mercado nacional, numa série de lançamentos que incluem alguns álbuns até aqui ainda inéditos entre nós. O primeiro volume leva-nos às origens desta série, em finais dos anos 60.

Com os universos de ficção nascidos na banda desenhada a representarem uma cada vez mais marcante presença nos ecrãs de cinema sabe bem ver que também o espaço da criação franco-belga (com tanta e tão importante presença na história da nona arte) também está ali representado. Se a incursão de Steve Spielberg e Peter Jackson pela obra de Hergé ainda espera um segundo episódio, já os gauleses criados por Goscinny e Uderzo somam uma filmografia expressiva (não necessariamente tão interessante quanto volumosa, é verdade). Para fevereiro de 2018 está agendada uma abordagem de imagem real às aventuras de Spirou e de Fantásio por Alexandre Coffre. Mas para já é de uma investida do cineasta Luc Besson (o mesmo de O Quinto Elemento) pelas histórias de ficção científica que Pierre Christin e Jean-Claude Mézières criaram em torno das figuras de Valérian e Laureline que se fala. E se o filme está um tanto aquém daquilo que a matéria prima poderia ter sugerido, já a edição integral destes álbuns de BD pela Asa é boa notícia a destacar.

Valérian surgiu representado pela primeira vez em 1967 nas páginas da revista Pilote. Juntamente com Laureline completa uma ágil e bem humorada dupla de agentes espácio-temporais de Galaxty, a capital de uma grande confederação galáctica no século XXVIII. A bordo de uma pequena nave de serviço que é dotada de tecnologia que lhes permite caminhar rapidamente no espaço e no tempo, os dois agentes caminham de mundo em mundo, contactando com civilizações (umas já identificadas, outras desconhecidas) e procurando resolver focos de conflito, de desequilíbrio e, frequentemente, de injustiça, cientes de que a diversidade que habita o cosmos não permite aplicar as mesmas soluções em todos os lugares.

Esta integral (em curso) vai apresentar edições duplas, juntando a cada semana dois álbuns sob uma nova capa comum na linha das que surgiram nas recentes edições de alma semelhante lançadas noutros países. Uma ilustração das respetivas capas originais precede, dentro de cada volume, as pranchas de cada um dos dois livros ali reunidos.


O primeiro volume apresenta um dos clássicos maiores deste universo. Trata-se de A Cidade das Águas Movediças que, apesar de não corresponder à primeira das aventuras de Valérian e Laureline, segue pistas que eram lançadas nas primeiras pranchas apresentadas na Pilote em 1967 e foi, na verdade a primeira aventura a ser publicada em livro. Para sermos precisos a edição original de A Cidade das Águas Movediças em livro juntou duas histórias antes apresentas na Pilote, e em ambas a dupla de agentes surgem em perseguição de um vilão. Xombul, um antigo responsável por um departamento oficial que sonhou ser ditador e que era o único preso político de Galaxty, rumara à Terra dos anos 80 do século XX ali procurando modificar o curso da história em seu favor.

Xombul é presença comum tanto em La Cité des eaux mouvantes como em Terre en flammes, respetivamente surgidas em 1968 e 1969 e que em 1970 acabaram reunidas num mesmo álbum. A primeira parte da narrativa coloca-nos numa Manhattan alagada, representando esta uma das primeiras visões de um futuro em que o nível dos mares subiu, destruindo parte das áreas urbanas (uma questão afinal não tão distante de preocupações atuais, se bem que no livro as causas de tamanha inundação não se devam ao efeito de alterações climáticas). A segunda metade da história decorre no parque de Yellowstone.

Entre as personagens há duas que traduzem referências a figuras da cultura popular do século XX. O líder de um dos gangues em Nova Iorque chama-se Sun Ra, numa clara alusão ao músico visionário Sun Ra. Mais adiante, na segunda parte da narrativa, Valérian e Laureline encontram o cientista Schroeder, cujo desenho evoca a figura de Julius Kelp, personagem que Jerry Lewis interpretou no filme As Noites Loucas do Dr. Jerryll, de 1963. A prancha de abertura desta aventura serviu possivelmente de inspiração para a cena da adaptação de Luc Besson ao cinema na qual encontramos pela primeira vez a dupla de protagonistas.


Prancha original de “Les Mauvais Rêves” (1967)

Estas duas aventuras que fizeram de A Cidade das Águas Movediças um caso de sucesso decorrem diretamente de uma outra que, em 1967, assegurara a estreia de Valérian e Laureline e que, por ser mais curta (em número de pranchas) face ao que era então a norma, não conheceu edição em livro senão mais tarde, já sob enorme popularidade da série e acabando mesmo por ser apresentada como o seu volume zero. Em Maus Sonhos (que este volume 1 da Asa junta a A Cidade das Águas Movediças) Valérian é enviado ao século XI para tentar travar o mesmo Xombul que recuara aos dias da Idade Média para, com o auxílio dos feitiços de um célebre mago, transformar tudo e todos em monstros, gerando o caos, depois, no século XXVIII.

É nesta aventura que surge Laureline, uma jovem resoluta da Europa medieval que ajuda Valérian na sua missão e que acaba por com ele rumar ao futuro. Uns minutos ligada ao “aparelho mnemónico” mal entra na nave de Valérian permite-lhe ficar a saber tudo o que a humanidade aprendeu em séculos. E instantes depois está já aos comandos, tentando ver se a lei sobre a indução de McPherson atua… “OK funciona”, responde… E o mundo fica aliviado, claro…

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