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Mondo vino

Texto: NUNO GALOPIM

Um autor de banda desenhada e um viticultor à descoberta dos universos um do outro. E nós, como leitores, acompanhamos ambos os mergulhos, neste livro de Étienne Davodeau agora lançado entre nós.

Ignorantes, sugere o título. Mas apenas das coisas um do outro, há que acrescentar. Um é autor de banda desenhada, com uma carreira reconhecida e uma série de títulos que têm mostrado sobretudo um gosto pelo registo documental (apesar de ter assinado também ficção). O outro é um viticultor da região do Loire, avesso à industrialização da produção, firme na sua relação com a terra e a vinha, em cujo cuidado (manual) diz que está o grosso do seu trabalho. Étienne Davodeau (o autor de BD) propôs então ao seu amigo viticultor Richard Leroy uma parceria. Ajudá-lo-ia durante um ano na sua vinha, ao mesmo tempo documentando num livro o que fosse acontecendo. Aprenderia assim o que pudesse dobre o trabalho de um viticultor. Em contrapartida apresentaria ao amigo o que pudesse sobre o universo da banda desenhada. Os Ignorantes conta-nos o que aconteceu. E mesmo não acabando nenhum deles por ficar especialista no métier do outro, a verdade é que ambos mergulham profundamente nos universos que aqui partilham. E nós, leitores, com eles fazemos o mesmo…

Étienne Davodeau encontra um compasso certo para a apresentação dos temas que quer mostrar e debater seguindo os ritmos dos trabalhos em curso. Os do campo são prioritários, começando de inverno, com todo um quadro de ações a desenvolver para que a vinha possa tirar o melhor da terra. A relação com os solos e as opções que Leroy toma são ponto de partida para que não estejamos apenas num plano contemplativo como observadores, mas sejamos antes convidados a escutar a discussão dessas escolhas.

Ao mesmo tempo Davodeau vai passando livros ao viticultor que, lendo-os de noite, tem assim mais temas para conversar no dia seguinte. E desde uma reflexão sobre Maus de Art Spiegelman a um embate que Leroy tem frente à obra de Moebius (que todos lhe dizem ser de referência mas que ele não gosta) tal como o vinho e a vinha, também a BD se torna aqui num universo de reflexões. Que não se esgota nos livros já que o par protagonista visita festivais de BD que permitem alargar pontos de vista sobre estes universos que vamos (re)descobrindo.

Apesar de centrado nestas duas figuras, Os Ignorantes não é um pas de deux… Pelo contrário há através de viagens e visitas motivos para não fechar em ambos os protagonistas os dois mundos de que se fala. Há passeios, almoços e jantares com outros viticultores. Assim como viagens para conhecer outros autores de BD ou a própria editora de Davodaeu. E nestes casos, na hora da refeição, vale a pena notar o modo cético como Leroy acompanha as cartas de vinhos dos restaurantes, num deles chegando mesmo a pedir apenas… água.

Como “extra”, o livro oferece no final (de uma história que não tem um clímax narrativo e que, ao contrário da memória de um Sideways, de Alexander Payne, por isso, poderia até continuar) uma lista do que foi bebido e do que foi lido… Um guia de vinhos (franceses) e de banda desenhada para iniciados? Sim, porque não?

“Os Ignorantes”, de Étienne Davodeau, é uma edição de 272 páginas pela Levoir.

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