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O fundamental… e os extras

Texto: NUNO GALOPIM

Produzido por Trevor Horn, o álbum de 2006 dos Pet Shop Boys não seguiu o projeto originalmente traçado pela banda mas acabou por se revelar no seu mais apetitoso conjunto de canções desde os tempos do histórico “Very”. Política, orquestras e pop feita por quem sabe da coisa.

Nem sempre a ideia com que de parte para a criação de um novo projeto acaba devidamente fixada no produto final. E quando os Pet Shop Boys começaram a preparar aquele que seria o seu segundo álbum de originais no século XXI – o primeiro desde o mais discreto Release, de 2001 – a ideia que eles mesmos enviaram ao seu manager sob a designação de trabalho “Fundamentally Pet Shop Boys” era a de um disco de canções pop com uma sonoridade bem contemporânea, mais maquinal do que humana, com eletrónicas intensas e “gordas”, sem house nem pianos, falando sobre o mundo do presente e com humor… É verdade que, quando finalmente escutámos o álbum Fundamental em 2006 alguns destes requisitos se mantinham a bordo, sobretudo no campo dos temas e na presença do humor. Contudo, ao minimalismo electro que tinham em vista acabou por se sobrepor a eloquência, por vezes quase sinfonista, que aquele que chamaram para produzir o disco trouxe consigo para o estúdio. Trevor Horn tinha já produzido os Pet Shop Boys em singles como Left For My Own Devices e It’s Alrigt, ambos em finais dos anos 80. O primeiro, que cruzava heranças de um Debussy com uma batida disco (como Neil Tennant então cantava), seria um dos pontos de partida para, sem perder o fulgor eletrónico desejado, definir os caminhos que os conduziram a Fundamental.

O minimalismo inicialmente desejado – de que Minimal será uma das expressões mais próximas – acabou por dar lugar a outras visões. Não havia de todo um desejo de juntar o som de orquestra ao disco. Mas Tevor Horn fê-lo num tema. E, como Neil e Chris contam no booklet desta nova edição, às tantas estava a juntar orquestra a todos os temas. Fundamentalmente este seria um disco dos Pet Shop Boys à la Trevor Horn… Convenhamos que não foi má opção.

O disco congrega tanto temas que nasceram nas sessões durante as quais procuraram criar os inéditos que teriam de juntar a PopArt. E logo ali surgiram peças como Numb (versão de um original de Diana Warren) ou Casanova in Hell. A estas juntaram-se outros que surgiram numa etapa de trabalhos em Londres, mais tarde entrando em cena contribuições (em menor volume) de uma temporada passada em Nápoles na qual partilharam o palco com Miss Kittin e assistiram a um concerto de Sondre Lerche (que entretanto lhes pedira para produzir um tema seu).

O épico The Sodom and Gomorrah Show – que de certa forma poderá ser um herdeiro de It’s a Sin – estava pensado como primeiro single, mas Neil e Chris explicam que o sentido bíblico do título gerou interpretações equívocas e a editora optou por vetar a sugestão. Em busca de outra sugestão, e não parecendo que Minimal seria a opção ideal de cartão de visita para o álbum, acabaram por escolher I’m With Stupid, aquela que descrevem como a segunda canção da trilogia dedicada a Tony Blair, falando aqui da sua relação com George W. Bush.

Bem acolhido, o álbum foi sem surpresa recebido com aplausos que o descreveram – com razão – como o melhor disco de estúdio dos Pet Shop Boys desde Very (de 1993). Só não se repetiu o patamar de popularidade nas vendas desses tempos, mas na verdade os Pet Shop Boys pós-ano 2000 deixaram de ter esses índices de sucesso como prioridade ou preocupação. A sua vida na estrada ganhara outro fulgor, as digressões sucediam-se e a banda transformara-se mesmo numa grande força de palco.

O disco de extras que acompanha esta edição de Fundamental não mostra nem ecos dessa vida de palco nem mesmo parece muito focado no impacte que teve na banda a criação de uma banda sonora alternativa para o Couraçado Potemkin, de Sergei Einsenstein (que na verdade lançou alguns ecos sobre o álbum de 2006). Pelos extras encontramos mais maquetes de temas deixados de fora no alinhamento de Fundamental, a demo de trabalho que deram a Dancing in the Dusk de Sondre Lerche, temas compostos para Kylie Minogue (um deles tendo acabado por ser retido por Neil Tennant e algumas leituras aletrantivas (ringtones incluídos)… Ao contrário do sucedido com os extras de Release (outro dos novos lançamentos), aqui a ementa mais suculenta está no álbum em si mesmo e não nestes extras que lhe servem de complemento…

“Fundamental / Further Listening 2005-2007” dos Pet Shop Boys é uma edição em 2CD da Parlophone/Warner Music

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