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“Songs of Faith and Devotion”: entre assombrações e novos desafios

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1993 “Songs of Faith and Devotion” é tanto um canto tenso sobre o fim de uma era – seria o último disco com Alan Wilder – e ao mesmo tempo revela a abertura de novas visões e caminhos que os Depeche Mode explorariam mais adiante.

Na segunda colaboração com os Depeche Mode o produtor Flood propôs um outro novo modelo de trabalho, este ainda mais substancialmente afastado do habitualmente adotado pela banda. Alugaram uma vivenda em Madrid na qual foi instalado um estúdio e, durante quatro semanas, músicos e produtor ali viveram. Mas o que poderia ter sido um método desafiante para procurar caminhos rumo a novas canções acabaria por ser descrito por Alan Wilder como uma perda de tempo já que, na verdade, nada daquilo que ali surgiu seria depois verdadeiramente útil, valendo ao disco que tinham na linha do horizonte uma nova etapa de trabalho, relativamente mais “convencional” entretanto agendada para um estúdio em Hamburgo.

A temporada madrilena, contudo, deixara as suas marcas… Após a criação de Violator e da digressão que se seguira cada um rumara ao seu espaço de retiro, com Dave Gahan a encontrar novos modos de vida e outras músicas nos EUA. Ecos dessas vivências mais próximas da cultura rock’n’roll, desde logo bem evidentes no seu novo look, acabariam por chegar às sessões de trabalho de um novo disco que nascia sobre um agudizar dos desentendimentos entre Martin Gore, o principal compositor, e Alan Wilder, cujo trabalho até então se centrava na busca de sonoridades e finalização das ideias lançadas pelas maquetes que o primeiro lhe entregava.

Foi já comparado com o ambiente de criação de Songs Of Faith and Devotion aquele que os Beatles viveram nos seus últimos tempos de carreira. E talvez daí tenha nascido um certo receio (entre admiradores da banda) de que um eventual fim pudesse também estar por perto. Na verdade a cisão acabou por de verificar com o anuncio de rutura da parte de Alan Wilder que se afastou após estar concluído um calendário de estrada que elevou o trabalho de palco dos Depeche Mode a um novo e ainda mais ambicioso patamar de exigência tanto na criação dos conceitos musicais e cénicos como na própria estrutura que a suportou.

O ambiente de tensão que se viveu durante o processo criativo acabou por se projetar na criação de um álbum que revelou novas demandas e levantou outras possibilidades para a música dos Depeche Mode. Se Violator conseguira estabelecer um diálogo entre uma noção de síntese daquilo que haviam conquistado na segunda metade dos anos 80 e sinais de atenção para com o que no mundo (dos sons) ia mudando ao seu redor, em Songs Of Faith and Devotion aprofundam a assimilação de ecos da cultura americana – do gospel ao rock – ao mesmo tempo acabando por traduzir também sinais de tempos em que a cultura indie rock ganhava impacte global. Fazem-no, porém, sem perder a identidade, mostrando canções como Rush ou Higher Love sinais de que não se fazia uma rutura com o passado, mas antes havia em cena a vontade de procurar outros estímulos para depois os integrar na sua linguagem como tão bem o mostraram canções como In Your Room ou Walking In My Shoes. Mais radical na exposição de novos elementos no som dos Depeche Mode, I Feel You foi ousadamente escolhido como single de apresentação. Cabe depois a Condemnation ou Get Right With Me as expressões mais profunda da identidade temática de um álbum pleno de sugestões de religiosidade e que tem depois em canções como Judas ou One Caress momentos que vincam uma evolução na continuidade de outra das faces da música da banda, aqui na região que tem na voz de Martin Gore o protagonista.

Se por um lado o processo criativo foi tenso e assombrado, por outro a receção do álbum não só refletiu o entusiasmo pela abertura de novos caminhos na música dos Depeche Mode como traduziu uma adesão mais entusiasmada do que nunca do público que a ele aderiu de forma imediata, tanto que pela primeira vez um álbum da banda atingiu o número um tanto no Reino Unido como nos EUA…

Visualmente o disco representou uma vontade inédita em apresentar os quatro músicos na capa. Talvez não o imaginassem então, mas a soma das fotos às pinceladas que servem para simbolizar cada um dos quatro, acabou por fixar naquele instante o final de uma era… Daí em diante a sua história far-se-ia em trio… Mas só quando Ultra chegou às lojas, em 1997, a certeza de que havia caminho pela frente se figurou para muitos… Aquele hiato não foi fácil… Mas em breve lá iremos.

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