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Quando as ruínas são bem pintadas…

Texto: NUNO GALOPIM

Após um silêncio de quatro anos os Grizzly Bear reafirmam o seu lugar entre o firmamento indie pop com um álbum em tudo fiel à sua identidade, cheio de belas canções e pontualmente com piscadelas de olho mais… pop. Porque não?

Habituámo-nos às pausas relativamente longas entre discos que têm assinalado o percurso dos Grizzly Bear, num ritmo que tem vindo progressivamente a alargar esses intervalos de silêncio que precedem cada novo reencontro. Foi por isso mais extenso do que os anteriores o período que separa o anterior (e magnífico) Shields, de 2012, nascendo de incertezas sobre o futuro da própria banda que aos poucos cederam a uma rota de reencontro que começou por se fazer à distância (agora que cada um vive em seu lugar) mas que na verdade ganhou forma quando, à “antiga”, se juntaram para trabalhar em conjunto. E o resultado, mesmo com umas frestas de surpresa aqui e ali, é um disco… clássico. Clássico ao modo dos Grizzly Bear, entenda-se.

Depois de bem promissoras sugestões lançadas entre os dois primeiros álbuns, em Veckatimest (de 2009) os Grizzly Bear moldaram uma visão indie pop de travo gourmet que aprofundaram em Shields e, agora, em Painted Ruins, conhece nova e elegante abordagem. Há quem chame “barroca” a uma atitude instrumental que, no plano dos arranjos, define mais do que um cenário espartano para o lançamento das linhas principais que desenham a canção… Barrocas ou nem por isso (eu com o barroco vou logo ter a Bach, Lully e outros de então) as canções dos Grizzly Bear são pequenos mundos de desafio ao detalhe, ao gosto pelo elaborado, mas sob uma clareza arrumada que faz tudo parecer de uma rara leveza. Coros, guitarras, eletrónicas, tudo se liga, tudo flui…

Se no pungente Morning Sound há sinais de um interesse menos habitual pelo investimento numa experiência mais ritmicamente marcada e, à sua maneira, pop, já o todo do álbum confirma em pleno uma experiência que algures terá na sua genética as presenças de Brian Wilson ou um Van Dyke Parks como figuras tutelares. Mas na verdade há aqui, mais do que referências de outros, a clara afirmação de uma voz criativa muito própria e já bem demarcada e definida. É verdade que na cultura pop/rock muitos são os álbuns de estreia que arrepiam e arrebatam. Mas discos como Painted Ruins não nascem num primeiro momento. Pedem tempo. De vida (e de trabalho acumulado) a quem o fez. E de atenção, a nós, porque merece que lha dediquemos.

“Painted Ruins”, dos Grizzly Bear, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Columbia ★★★★

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