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A grande regressão

Texto: NUNO CARVALHO

Por meio de um registo quase ensaístico, e dando voz às palavras do escritor afro-americano James Baldwin, “Eu não Sou o Teu Negro” fala da condição dos negros na América através dos tempos com uma visão lucidamente pessimista mas também humanista

Inspirado pelo manuscrito inacabado do derradeiro livro do escritor afro-americano James Baldwin (1924-1987), o realizador de origem haitiana Raoul Peck traça um esboço da história do ativismo negro durante a era dos direitos civis, estabelecendo pontes com episódios recentes de expressão de racismo e intolerância.

Num momento em que nos EUA regressam fantasmas e demónios raciais instigados por uma intervenção ambivalente do presidente Donald Trump perante manifestações de ódio e xenofobia, um filme como Eu não Sou o Teu Negro (I’m not Your Negro no original) torna-se ainda mais pertinente. E prova que, de facto, Baldwin era uma figura com uma dimensão profética que estava 40/50 anos à frente do seu tempo e cuja profunda sensibilidade lhe permitiu aperceber-se com grande lucidez (e traduzi-los com espantosa eloquência) de sinais, problemas e dilemas relativos à forma hipócrita e dúplice como a generalidade da sociedade americana do seu tempo percecionava e tratava os cidadãos afro-americanos.

Recorrendo a imagens de arquivo nas quais também pontifica o próprio James Baldwin, e com uma narração de Samuel L. Jackson assente nas palavras do romancista, ensaísta, novelista, dramaturgo, poeta e crítico social nova-iorquino, Peck dramatiza o manuscrito incompleto (apenas 30 páginas) de Remember This House, parte daquilo que seria um livro memorialístico e autobiográfico sobre três homens que eram amigos do escritor e que marcaram a história do movimento dos direitos civis, tendo acabado assassinados: Malcolm X, Martin Luther King Jr. e Medgar Evers. Através das vidas destas três figuras históricas, Baldwin pretendia contar a história do que era ser negro na América. E é isso que este documentário que levou seis anos a ser feito consegue de uma forma notável: por meio de um registo quase ensaístico, e dando voz às palavras do escritor, fala da condição dos negros na América através dos tempos com uma visão lucidamente pessimista mas também humanista.

Eu não Sou o Teu Negro é um filme que chega a ser doloroso e angustiante de tão lúcidas e rigorosas que são as palavras de Baldwin. Quando diz, por exemplo: “É um grande choque descobrir que o país em que nascemos e ao qual devemos a vida e a identidade não desenvolveu, no seu sistema de realidade, nenhum lugar para nós.” Ou quando reflete sobre a perceção preconceituosa, desumanizadora e despersonalizante que a maioria branca tem dos cidadãos negros: “Há dias, e este é um deles, em que nos perguntamos qual é o nosso papel neste país, e qual o nosso futuro neste país. Como é que vamos reconciliar-nos com a nossa situação aqui e como vamos comunicar à vasta, desatenta, irrefletida e cruel maioria branca que estamos aqui. Sinto-me apavorado com a apatia moral, com a morte do coração, que está a acontecer no meu país. Esta gente anda há tanto tempo a enganar-se a si mesma que não pensa verdadeiramente que eu sou humano. É algo que retiro da sua conduta, não do que dizem. Isto significa que se tornaram, no seu íntimo, monstros morais.” Ou ainda quando fala sobre como a opressão reveste os oprimidos da força da paciência: “Porque não há reino que perdure apenas pela força. A força não funciona da maneira que os seus defensores pensam. Não revela, por exemplo, à vítima o vigor do adversário. Pelo contrário, revela a fraqueza, e até o pânico do adversário. E esta revelação investe a vítima de paciência.”

“Eu não Sou o Teu Negro”, de Raoul Peck, está disponível em DVD numa edição da Midas Filmes e em diversas plataformas de VOD

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