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Texto: NUNO GALOPIM

É impossível escutar algumas das canções dos Talking Heads sem visualizar as soluções cénicas, performativas e de guarda-roupa com que as materializaram em palco em finais de 1983 e que o filme “Stop Making Sense”, de Johanthan Demme fixou como episódio marcante na história da relação da música com as imagens.

Grandes realizadores filmaram já grandes concertos. Martin Scorsese com os The Band (e mais recentemente os Rolling Stones). David Lynch com os Duran Duran. D.A. Pennebaker com David Bowie. Mas se há uma ligação maior de um nome de primeiro plano do cinema a um palco onde decorreu um concerto ao vivo temos de apontar as atenções a Jonathan Demme e aquele que talvez seja o melhor filme-concerto de todos os tempos. E só por isso que bom que é podermos voltar a ter Stop Making Sense novamente entre nós… numa sala escura.

Autor de uma obra notável de ficção – pela qual passam títulos como O Silêncio dos Inocentes (1991) ou Filadélfia (1993) – Jonathan Demme, que nos últimos anos desenvolveu um importante relacionamento com Neil Young – a quem dedicou já os filmes Heart of Gold (2006), Neil Young Trunk Show (2009) e Neil Young Journeys (2012) – assinou em 1984 um filme que fez de um encontro com os Talking Heads um momento maior na história da iconografia pop/rock, com ele iniciando uma ligação à música que o fez realizar telediscos para nomes como os New Order ou Bruce Springsteen.

Rodado durante uma série de noites num teatro em Hollywood em dezembro de 1983 o filme capta os Talking Heads num momento em que corriam palcos na sequência da edição, meses antes, de Speaking in Tongues, o primeiro disco que a banda produzia por si mesma (após um marcante trio de álbuns em parceria com Brian Eno). Se musicalmente a visão é abrangente e inclusiva, demonstrando uma sede de assimilação que sempre caracterizou a personalidade curiosa de David Byrne, no plano visual a materialização do alinhamento revela um pensamento cénico mais próximo de uma estrutura narrativa (a da ópera, do bailado ou do teatro musical, por exemplo) do que a mais habitual em concertos pop/rock.

O filme abre (tal como os concertos) em registo de simplicidade total, com David Byrne a entrar num palco descarnado, acompanhado por uma guitarra e um gravador de cassetes, mergulhando diretamente em Psycho Killer, que abre o alinhamento… Aos poucos, a cada canção, o palco vai acolhendo os outros elementos da banda, mais os convidados e também os elementos que vão compondo uma cenografia progressivamente mais elaborada. O que vai mudando também é a dimensão do fato de Byrne que, por alturas de Girlfrend Is Better (canção de cuja letra é retirado o título do filme e do álbum com o registo ao vivo destas atuações) se mostra para lá do XXXXL… Descrever mais é “estragar” a descoberta de quem não conhece estas imagens. Mas vale a pena partir para elas (ou para o seu reencontro) com a certeza de que este é um momento invulgarmente marcante na história do relacionamento da música com as imagens.

“Stop Making Sense”, de Jonathan Demme, está em exibição.

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