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Migrações, racismo, fronteiras, deficiência, política e outros temas nos filmes do Queer Lisboa 21

"Beach Rats" integra a programação do Queer Lisboa 21

O Queer Lisboa 21 realiza-se de 15 a 23 de setembro no Cinema São Jorge, com atividades paralelas no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado. O festival vai apresentar 90 filmes de 32 países e inclui uma retrospetiva dedicada à artista multimédia Shu Lea Cheang. O filme de abertura será God’s Own Country, do britânico Francis Lee, na Noite de Abertura. A Noite de Encerramento será celebrada com o muito aplaudido Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert. O festival recebe ainda o cineasta canadiano Yan England, que vem apresentar o filme 1:54, protagonizado por Antoine-Olivier Pilon (que vimos em Mommy de Xavier Dolan), e fará a antestreia nacional de Quand On A 17 Ans, de André Téchiné.

Filmes “que falam de religião, migrações, racismo, fronteiras, deficiência, política, ao mesmo tempo em que arriscam transdisciplinaridades, rompem cânones do cinema de género, abraçam novas linguagens audiovisuais e novos modelos de relação do espectador com essas linguagens” passam pela competição de Longas Metragens.

Segundo lemos no comunicado do Queer Lisboa 21:

Há ali histórias de coming of age – em As You Are (que em 2016 valeu a Miles Joris-Peyrafitte o prémio Especial do Júri em Sundance, sendo o filme protagonizado pela it girl, Amandla Stenberg; Charlie Heaton, da série Stranger Things; e Owen Campbell) e em Beach Rats (que este ano deu à cineasta Eliza Hittman o prémio de Melhor Realização, também em Sundance); como discussões sobre o Médio Oriente e o racismo crescente na Europa – em The Beach House, primeira longa-metragem do libanês Roy Dib. O tema das migrações e das identidades sexuais na Europa de hoje ganha especial destaque em Los Objetos Amorosos, de Adrián Silvestre. Já a forma como a aparência física nos condiciona na sociedade ganha contornos verdadeiramente estilizados e esquizofrénicos em Pieles, de Eduardo Casanova. A história de três mulheres que se encontram numa altura crucial das suas vidas num cenário inusitado, é retratada por Leonie Krippendorf em Looping; enquanto em Close-Knit a japonesa Naoko Ogigami reflete sobre questões identitárias e de preconceito, remetendo-nos para o estilo visual e narrativo do cinema de Hirokazu Koreeda. Destaque ainda para Corpo Elétrico, primeira longa do brasileiro Marcelo Caetano, que se centra em Elias, um jovem de 23 anos que nas suas relações desafia as normas hétero e homonormativas. O cineasta estará presente no festival.

Para a Competição de Documentários, a autorrepresentação da família fragmentada de um cineasta muçulmano, paquistanês e gay, Arshad Khan, é-nos mostrada em Abu; somos levados até ao atual cenário de crise política no Brasil através do retrato do deputado Jean Wyllys em Entre os Homens de Bem, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, que estarão em Lisboa; é-nos apresentada uma visão queer das realidades sociais e politicas da Tailândia em Homogeneous, Empty Time, de Thunska Pansittivorakul e Harit Srikhao; enquanto em Au-delà de l’Ombre, de Mezni Hafaiedh, é-nos exposta a realidade tunisina e os efeitos de uma sociedade homofóbica num grupo de jovens. Já em Small Talk, de Hui-Chen Huang, temos acesso às mudanças ocorridas na vida de três gerações de mulheres do Taiwan. My Mother is Pink, primeiro documentário da jornalista Cecilie Debell, que também estará no festival, é um road movie sobre uma relação conturbada entre um filho e a sua mãe. Em The Strangest Stranger, de Magnus Bärtås, conhecemos melhor o homem que inspirou Haruki Murakami no seu popular romance Kafka à Beira Mar. Jo Sol regressa este ano ao festival para apresentar Vivir y Otras Ficciones sobre o tema da assistência sexual a pessoas com diversidades funcionais.

Este ano, a produção nacional é reforçada na Competição de Curtas-Metragens, com filmes de João Pedro Rodrigues – Où En Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues? –, Carlos Conceição – Coelho Mau –, Gabriel Abrantes – Os Humores Artificiais –, e Gonçalo Almeida – Phantom. A Competição inclui ainda títulos como My Gay Sister, que valeu à realizadora Lia Hietala o Teddy Award para Melhor Curta-Metragem na Berlinale (sendo que a cineasta estará em Lisboa) ou Les Îles, a última curta de Yann Gonzalez.

Camila José Donoso, a autora de Casa Roshell, um filme sobre este autêntico espaço de liberdade individual, estará em Lisboa para apresentar a sua obra, que integra a Competição Queer Art. O festival contará ainda com a cineasta Samira Elagoz, que traz à Competição o documentário Craigslist Allstars, que explora até ao limite a relação do corpo com os media, físicos e virtuais. Pablo Esbert Lilienfeld, correalizador de Introducing the Star: The Choir Girls’ Diaries, também vem ao festival apresentar este misto de ficção com documentário que é um passo em frente na construção de novas metáforas ligadas ao VIH/Sida. A Competição Queer Art conta ainda com o mais recente filme do célebre Bruce LaBruce, Ulrike’s Brain, uma sequela de The Raspberry Reich; Cuentos de Chacales, um exercício experimental sobre a fragmentação da memória, realizado por Martín Farina; A Destruição de Bernardet, documentário de Claudia Priscilla e Pedro Marques que nos revela a personalidade ímpar de Jean-Claude Bernardet, uma referência do cinema brasileiro desde os anos 1960; ou Occidental, uma parábola sobre a atual paranoia ocidental, protagonizada por Paul Hamy (protagonista de O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues), do franco-argelino Neïl Beloufa. A temática do VIH/Sida, os seus sobreviventes, bem como a relação entre a indústria farmacêutica, o mercado da droga, o poder estatal e as biopolíticas ganha corpo em Fluidø, o manifesto transfeminista de Shu Lea Cheang, artista que este ano é homenageada pelo Queer Lisboa.

Na secção Queer Pop há um programa centrado na obra de George Michael composto por telediscos que traduzem o processo de progressivo afastamento dos modelos da pop star juvenil que marcaram o seu início de carreira; e outro focado nos novos valores da música queer do Brasil onde pontuam nomes como Jaloo, Banda Uó, No Porn, McLinn da Quebrada ou Thiago Pethit.

Durante o festival vão ainda realizar-se várias festas. A Festa de Abertura terá lugar no clube Fontória e contará com a música do trio Asneira (António Almada Guerra, João Villas-Boas e Tiago Pinhal Costa). No dia 21, o Queer Lisboa associa-se ao coletivo Groove Ball para uma festa no Rive-Rouge, enquanto um dia depois a festa será feita no clube Construction, onde estará presente Colby Keller. A Festa de Encerramento realiza-se no Titanic Sur Mer e nela vão passar música Sky Deep e Simºne.

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