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Olhares americanos (em tempos difíceis)

Texto: NUNO GALOPIM

“Native Invader”, que é o décimo quinto álbum de estúdio de Tori Amos e já foi comparado à ideia do grande romance americano, é um álbum que olha para os tempos que vivemos através de uma belíssima coleção de canções que se apresentam com uma luxuriante paleta de timbres.

Dispensam-se por esta altura desfiles de adjetivos para caracterizar Tori Amos. A obra, firme expressão de uma identidade e reconhecido talento, fala por si. E Native Invader mais não faz do que juntar a uma discografia notável um dos seus melhores episódios. Depois dos flirts com o universo da música orquestral desenhados entre a homenagem a figuras da música erudita que a inspiraram em Night of Hunters e da coleção de pontos de vista, num comprimento de onda semelhante, sobre as suas próprias canções em Gold Dust, discos respetivamente lançados em 2011 e 2012 pela Deutsche Grammophon, e da concretização do projeto de um musical, Tori Amos reencontrou em Unrepentant Geraldines (2014) um trilho muito pessoal de exploração dos espaços da canção popular. Pop à la Tori Amos, claro, dominada por uma relação entre a voz, o piano que há muito são a medula da sua personalidade criativa. Native Invader segue, três anos depois, por caminhos de uma lógica semelhante. Mas não só define uma ainda melhor coleção de canções como doseia de forma magnífica a presença de uma paleta tímbrica ainda mais rica, sendo de sublinhar, mais do que nunca antes, uma abordagem gourmet, inspirada, embora nunca desejosa de protagonismo maior, a ferramentas eletrónicas.

Político sem ser panfletário, Native Invader é um disco no qual Tori Amos reflete sobre o seu aqui e agora. E fá-lo sem toldar preocupações nem um sentido crítico, embora opte por abrir as canções a olhares poéticos pelos quais traduz preocupações e sentidos de inquietude que estes tempos naturalmente lançam sobre uma mente atenta e consciente. Ao mesmo tempo há uma dimensão mais pessoal que cruza outras canções, assinalando assim mais um episódio na construção de uma obra pela qual Tori Amos tem vindo a partilhar experiências, sensações e pensamentos. Pessoal, portanto. Mas sempre transmissível. E com uma das suas mais sólidas (e bem gravadas) coleções de canções.

“Native Invader”, de Tori Amos, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Decca. ★★★★★

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