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“Heroes”: ecos de um tempo na história de Berlim

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em outubro de 1977 – e por isso a assinalar agora os seus 40 anos de vida – o álbum “Heroes” de David Bowie não só se tornou numa peça maior da história pop/rock dos anos 70 como representa um ícone pop de um tempo na história da cidade onde esta música nasceu.

Foi em Berlim que, depois de 1976 e até ao final dos anos 70, David Bowie se reencontrou a si mesmo após uma primeira etapa difícil americana com “casa” em Los Angeles. As narrativas berlinenses de Christopher Isherwood tê-lo-ão atraído para uma cidade onde encontrou uma tranquilidade e anonimato que lhe permitiram uma paz que há muito não conhecia. Teve um apartamento, igual ao de tantos outros berlinenses, na Hauptrasse, frequentava cafés e bares de Kreuzberg, visitava os armazéns Ka De Wee, registava sessões nos Hansa, na zona de Potsdamer Platz, que nessa altura era um descampado e terra de ninguém… Tornou-se num ícone da cidade, a sua passagem breve pelo filme Christiane F, de Uli Edel, assegurando um retrato da forma como os berlinenses então o viam como um dos seus.

Em 1977 gravou, além de colaborações com Iggy Pop, dois álbums que reforçariam o seu estatuto como uma das mais influentes figuras da história da música popular. Um deles, com trabalhos iniciados no Chateau d’Herouville (em França) e terminados em Berlim, foi Low, de certa forma a cartilha que ajudou a definir rumos que a pop tomaria nos anos 80. O outro, Heroes, foi o seu natural sucessor. E vencida a estranheza com que Low fora recebido alguns meses antes, tornou-se num fenómeno à escala global (com exceções, como nos EUA, onde o sucesso mainstream só regressaria com Let’s Dance).

Heroes foi gravado no hoje mítico estúdio Hansa By The Wall 2, a poucos metros do muro que nesses tempos dividia a cidade. Foram frequentes as vezes que se viram na mira dos binóculos dos soldados russsos, o ambiente de vigilância e ansiedade de certa forma projectando-se depois na música. O ponto de partida para a construção musical foi em tudo semelhante ao de Low, primeiras texturas e ideias melódicas lançadas em poucos dias, sob jogos de teatro em volta de personagens que Eno e Bowie assumiam em estúdio, uma vez mais sob a atenção de Tony Visconti, na produção.

Porém, Heroes revelar-se-ia um disco mais festivo do que o sombrio Low. As guitarras, a cargo de Robert Fripp, concederam-lhe uma carnalidade mais exultante, e o momento que pessoal mais positivo que Bowie vivia acabou por se instalar entre as canções. O tema-título, uma das mais célebres canções de Bowie, traduz, ainda, um sentido de triunfo que Bowie sentia pelo reconhecimento da sua obra. As palavras desta canção, que hoje são parte do tesouro Olimpo da cultura popular surgiram, como as das demais de Heroes sob apelo quase espontâneo. Muitos recordam hoje como Bowie só sabia o que ia cantar quando se aproximava do mircofone…

Durante muito tempo a canção foi um tema instrumental tendo apenas conhecido a sua expressão final como canção já na reta final do trabalho de gravação do álbum. A base de trabalho para o instrumental era relativamente “convencional” mas a seu redor cresceu o “muro” feito de guitarras e sintetizadores que acabaria por caracterizar o fôlego elétrico que domina a canção e sobre o qual a voz inscreve uma das criações mais inesquecíveis da obra de David Bowie. Curiosamente, na época, esteve longe de ser um dos “sucessos” mais evidentes quando surgiu no formato de 45 rotações, ainda em finais de 1977. Mas o tempo fez de Heroes um dos maiores clássicos de Bowie. No lado B do single surgiu outro tema do álbum, o quase instrumental V-2 Schneider, no qual a presença dos sintetizadores é bem mais evidente.

O sucessor do tema-título do álbum Heroes na discografia a 45 rotações de David Bowie nasceu de uma escolha que alguns tomaram como invulgar mas que, em função do alinhamento do álbum, parece mesmo a mais correta das opções disponíveis. Dominada pela guitarra de Robert Fripp e por efeitos eletrónicos acrescentados, Beauty and the Beast é uma canção áspera e mesmo ameaçadora, com uma letra que sempre suscitou dúvidas quanto ao real sentido do que ali se fala. Lançado em janeiro de 1978 foi contudo um verdadeiro flop, não passando do número 39 no Reino Unido e nem sequer surgindo na tabela nos EUA. No lado B do single surgia o mais paisagista e electrónico Sense of Doubt, igualmente extraído do alinhamento do álbum.

As gravações (e a mais longa etapa de mistura) duraram perto de três meses, entre Berlim e um estúdio na Suíça, sob clima de otimismo. Esta confiança, de resto, foi depois aproveitada pela editora na hora de promover o álbum. “Há a old wave, a new wave e, depois, David Bowie”… O disco, curiosamente, apelaria transversalmente a muitos e foi para diversas publicações do disco do ano em finais de 1977.

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