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“Lodger”: o disco “berlinense” que o não era bem assim…

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1979 o álbum “Lodger” é habitualmente apontado como aquele que encerra a trilogia de Berlim. A nova caixa que junta a sua obra gravada entre 1977 e 1982 integra-o em duas misturas, uma delas inédita.

Lodger é muitas vezes citado como o menos bem amado dos álbuns da chamada “trilogia berlinense”. Na verdade, o tempo acabou por dele fazer um álbum de absoluta referência, representando em si (e não apenas pelo facto de ter sido editado em 1979), uma das mais interessantes sínteses das ideias que faziam a linha da frente da invenção pop “não alinhada” em finais de 70, lançando pistas para a década que se aproximava. Além disso, Lodger foi gravado entre Montreux (na Suíça) e Nova Iorque, das anteriores sessões berlinenses aceitando apenas a manutenção de parte da equipa de trabalho e, de alguma forma, temáticas e estratégias de abordagem a novas formas de composição. Estas últimas revelaram em Lodger uma maior liberdade de acção de Brian Eno que, com Bowie, promoveram uma série de operações de construção musical quase aleatória (mediante sugestões de acordes, de estilos, de climas a sugerir).

Curiosamente, este é, dos três álbuns (Low, Heroes e Lodger) aquele em que a presença autoral de Eno é menos evidente, estando ausente de quatro temas. Antes de se falar em world music, o disco demonstra a atenção de Bowie por musicologias de outras latitudes, e abre o leque de abordagens estilísticas a uma grande diversidade de caminhos (resta saber onde mora, aqui, uma certa relação de causa-efeito, com My Life In The Bush Of Ghosts, disco que pouco depois Brian Eno criou de parceria com David Byrne). Contra os dias sombrios retratados em Low e, sobretudo Heroes, revela uma luminosidade optimista, não o impedindo esta atitude dominante de vincar posições políticas concretas, da corrida ao nuclear em Fantastic Voyage à violência doméstica em Repetition.

O álbum gerou uma sucessão de singles de grande impacte, canções que sublinharam pistas de modernismo pop que, rapidamente, se fizeram de referência entre os seus discípulos que entravam em cena para assumir o protagonismo da invenção musical na primeira metade de 80.

O primeiro cartão de visita de Lodger chegou na forma de uma canção na qual Bowie procurou assimilar os sinais dos tempos, explorando caminhos semelhantes aos do movimento pós-punk. Boys Keep Swinging (que surgiu em single em finais de abril de 1979 com Fantastic Voyage no lado B) deu a Bowie o melhor resultado em vendas desde Sound and Vision dois anos antes. Mas o teledisco, de David Mallet, no qual o vemos a interpretar três figuras femininas, não caiu nas graças da editora nos Estados Undios, que optou por escolher assim um outro single para apresentar o novo álbum. Bowie chegou mesmo assim a apresentar esta canção na televisão norte-americana. É de resto célebre a sua passagem pelo Saturday Night Live, onde apresentou o tema com Klaus Nomi e Joey Arias no coro. A mesma canção teve pouco depois do lançamento uma primeira versão pelos Associates, que a apresentaram no formato de single.

O segundo single extraído do alinhamento representou mais um exemplo de uma escolha invulgar para o formato de 45 RPM. Contando com importante participação de Andrew Blew na guitarra, o tema celebra a cultura do DJ (não apenas a dos que passam discos nas discotecas, entenda-se). Editado em junho de 1979 e com Repetition no lado B, DJ não foi dos maiores êxitos da reta final dos setentas, mas deu a Bowie mais uma oportunidade para experimentar o emergente espaço do teledico, resultando desta canção uma nova parceria com David Mallett. Nas imagens vemos Bowie num estúdio de rádio, cruzando-as com outras captadas nas ruas de Londres, onde o músico avança entre uma pequena multidão que a ele se junta.

Os responsáveis pelas opções editoriais da discografia de David Bowie nos EUA, pouco entusiasmados pelas leituras de ambiguidade (de sexualidade, entenda-se) expressas em Boys Keep Swinging, optaram por extrair outro tema do alinhamento do álbum Lodger na hora de escolher um novo single. A escolha recaiu sobre Look Back in Anger, canção que sempre dividiu opiniões, mas que na verdade representa um dos momentos pop mais fulgurantes do alinhamento desse álbum de 1979. Com o tema Repetition no lado B, teve também edição em alguns outros territórios, mas em nenhum deles com particular impacte nas vendas. O teledisco criado por David Mallet e que acompanhou o lançamento do single é inspirado pelo clássico O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. E, juntamente com os restantes dois criados para os singles de Lodger, representa a construção de um novo patamar narrativo na história da sua videografia.

Para a caixa antológica A New Career in a New Town, que junta a obra editada por Bowie entre 1977 e 1982, o álbum Lodger surge em duas versões. Numa delas respeita-se a versão original, apresentando-se porém o som remasterizado. A outra propõe pontos de vista alternativos, num trabalho expressamente concebido para esta edição.

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