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Uma tarde entre aparições e lamentações

Texto: NUNO GALOPIM

Numa tarde de domingo o Grande Auditório da Gulbenkian ouviu uma belíssima interpretação da “Sinfonia Nº 3” de Górecki, num programa que inclui obras de Eurico Carrapatoso e James MacMillan estreadas há dias em Fátima.

Elisabete Matos (D.R.)

Fez-se de duas partes distintas a tarde de ontem no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, com as vozes e um programa contemporâneo como denominadores comuns. Numa mesma semana em que solistas do Coro Gulbenkian abordaram de forma exemplar o Stimmung de Karlheinz Stockahusen (numa noite no Panteão Nacional que só teria sido melhor se, em vez das desconfortáveis cadeiras, o público se tivesse sentado sobre almofadas e mantas no chão), a presença das vozes voltou a ser marcante. Na primeira parte escutaram-se duas obras vocais recentemente estreadas em Fátima num programa evocativo dos cem anos sobre as aparições. Salve Regina, de Eurico Carrapatoso e o mais aparatoso The Sun Danced, de James MacMillan deram conta da capacidade da orquestra e coro da Gulbenkian estarem, sobretudo sob a direção de Joana Carneiro, em estar em sintonia com a música que nasce neste momento. E que importante é para músicos, uma sala e quem na plateia se senta, poder acompanhar a música que surge neste tempo… E que bom, para todos, contar com a presença dos compositores em palco depois de cada uma das peças ter sido ali apresentada. Boas… aparições, portanto.

Mas outras emoções estavam guardadas para a segunda parte do programa. Numa das mais arrepiantes evocações musicais de memórias do Holocausto e que representa igualmente uma das peças mais importantes do repertório sinfónico da segunda metade do século XX, a Sinfonia Nº 3 do polaco Henryk Górecki, composta em 1976 mas só deviamente reconhecida quando, em 1992, uma gravação pela Nonesuch, com a London Sinfonietta, a direção de David Zinnman e a voz de Dawn Upshaw fizeram desse disco um verdadeiro fenómeno de vendas. Coube à soprano portuguesa Elisabete Matos (que na primeira parte do programa cantara já a parte solista de The Sun Danced) o papel determinante da voz numa obra que pede à orquestra que se comporte como um corpo uno, discreto mas presente, capaz de sugerir ondas de lamentação que muitas vezes brotam de soluçantes repetições. Magnífico… E a pedir em temporadas futuras mais incursões da orquestra pelo repertório orquestram diretamentre nascido dos ecos do minimalismo… Já ia sendo hora para mais encontros neste departamento, não?

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