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Garagem Hi-fi

Texto: DANIEL BARRADAS

Viessem de um sítio mais trendy do mundo anglófilo e as Pale Honey já teriam explodido por todo o mundo. Agora que chega Devotion, o segundo álbum, isto de serem um dos mais bem guardados segredos da Escandinávia já começa a parecer injustiça.

Em 2015 as Pale Honey deram-nos um dos mais entusiasmantes discos de estreia desta década. Se não ouviram falar dele foi provavelmente porque estas duas raparigas do sul da Suécia assinam por uma editora local. Viessem de um sítio mais trendy do mundo anglófilo e já teriam explodido por todo o mundo. Agora que chega Devotion, o segundo álbum, isto de serem um dos mais bem guardados segredos da Escandinávia já começa a parecer injustiça.

O auto-intitulado Pale Honey era uma pérola de consistência. Rock adolescente, atirado à nossa cara, com a urgência de uns Nirvana, mas a delicadeza de umas Breeders. Ouvi-o uma vez num bar de Oslo onde o tocaram do princípio ao fim. Ia lindamente com cervejas. Devotion começa com mais do mesmo, mas notamos imediatamente que desta vez houve um cuidado ainda maior no registo fonográfico. A gravação e produção são absolutamente impecáveis. Isto não é rock de garagem, isto é rock capaz de ser usado em demonstrações de sistemas hi-fi. Com as espartanas percursão e guitarra electrica da banda são desenhadas paisagens que vão da extrema próximidade a longíquos horizontes.

Replace me, a canção de abertura, não é talvez das melhores do duo, mas é impossível não ficar hipnotizado pelos efeitos espaciais capazes de transformar as mais simples linhas melódicas em momentos tridimensionais.

Someone’s devotion chega depois para nos dar Pale Honey no seu melhor. Um riff de guitarra ao nível de uns White Stripes, capaz de conter em poucas notas todo o espírito do rock, é repetido à exaustão e sobre ele contrói-se uma canção de raiva, entregue no entanto pela voz quase plácida e sempre elegante da vocalista que deixa o sublinhar das emoções para a sua guitarra.

A novidade deste album são as canções mais calmas e planantes que formam o diptico Devotion partes 1 e 2, uma em cada lado do disco (sim, comprem isto em vinil!). É aqui que a banda nos demonstra que tem capacidade para muito mais do que aquilo que já nos tinha apresentado, conseguindo ser também introspectiva, melancólica e em geral, extremamente inventiva.

A mais notável característica das Pale Honey é serem capazes de fazer tanto com tão pouco. As guitarras secas, as frases melódicas simples e repetitivas mas que conseguem criar ambientes complexos e contar histórias… “Golden”, talvez a minha faixa favorita, equilibra magistralmente a guitarra e a bateria sequíssimas (tocadas quase na nossa cara, oscilado entre um dedilhado intimista e uma distorção, entre um pulsar de bombo e um delírio de pratos) com os efeitos de eco na voz.

A recente versão que a banda fez de Lay all your love on me, um original dos Abba, não ficaria deslocada no álbum e poderia mostrar como as suas influências são bem diversas, mas a verdade é que não faz lá falta. O álbum sabe conter-se no número de canções, limitando-se a umas perfeitas 10.

Devotion é um decisivo passo em frente para uma banda que demonstra que o primeiro album não foi um acaso. Aqui há talento de sobra. Corram a ouvi-lo e depois espalhem a notícia. O número de devotos da banda bem pode aumentar.

Pale Honey “Devotion”, Bolero recordings ★★★★

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