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Os 30 anos de um álbum perfeito

Texto: NUNO GALOPIM

Passam hoje precisamente 30 anos sobre o momento em que David Sylvian apresentou o seu terceiro álbum, ainda hoje reconhecido como um momento maior da sua carreira e um dos melhores discos de canções editados nos anos 80.

Se no seu álbum de estreia a solo Brillian Trees (19984) lançou novos possíveis ângulos de abordagem jazzstica à escrita e moldagem das suas canções e se no duplo Gone To Earth (1986) aprofundou uma exploração de cenografias e texturas (sobretudo no álbum instrumental, que lança ideias que aprofundará mais tarde) em Secrets of The Beehive David Sylvian definiu um episódio de síntese que elevou ao patamar da perfeição a demanda por uma aboragem à escrita de canções que encetara ainda nos Japan e que caracterizou os primeiros anos do seu trabalho em nome próprio.

Apesar do cuidado ao detalhe que a instrumentação e produção conferem às canções, a escrita revela aqui as verdades de patamar de simplicidade formal que soube integrar entre o material musical o modo como o silêncio habitava já então a sua busca por uma linguagem.

Um dos títulos fundamentais da sua discografia (porém de comparação difícil com os trabalhos mais próximos da música improvisada que fazem a sua obra recente), Secrets Of The Beehive foi um dos álbuns nos quais David Sylvian mais se aproximou de uma noção mais “convencional” de escrita. Sem abdicar da contribuição de vários colaboradores (entre os quais Ryuichi Sakamoto, Steve Jansen e Mark Isham), Sylvian alcança aqui a expressão mais clara e firme de uma busca que tivera já primeiros sinais ainda nos dias em que militava nos Japan.

Melancólico, mas não necessariamente frágil, o disco que representou o final de primeiro ciclo na obra a solo de Sylvian motivou uma digressão: a In Praise Of Shamans Tour, que se seguiria. Mal imaginávamos então que, depois, teríamos de esperar 12 anos até reencontrar um novo álbum de canções gravado a solo por David Sylvian.

Os primeiros sinais do que nos esperava em Secrets of The Beehive chegaram com Let The Happiness In, uma canção em tudo diferente das que o músico editara até então no formato de single, aproximando-se de certa forma da noção de progressão ambiental que em tempos definira o mítico Ghosts, dos Japan. Quase despida de uma arquitetura rítmica, as percussões (na versão de estúdio) só entrando em cena a meio da canção, Let The Happiness In é dos melhores exemplos de procura de um espaço instrumental para as características vocais de Sylvian e é ainda hoje uma das suas melhores canções de sempre. O single juntava, no lado B o inédito Blue of Noon. Let The Happiness In teve breve passagem (de apenas uma semana) pela tabela de singles britânica, onde atingiu o número 66. O segundo single, Orpheus, editado já em 1988, representou nova colaboração com Ryuichi Sakamoto, desta feita como pianista.

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1 Comment on Os 30 anos de um álbum perfeito

  1. O facto de a versão portuguesa trazer o Forbidden Colours em lugar do Promise ainda o tornou, para mim, mais perfeito.
    Este álbum é exemplo máximo de que é possível condensar tudo o que de belo a arte musical pode dar dentro dos 3 ou 4 minutos de cada canção “pop”

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