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Há dez anos era assim (novembro 2007)

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Abrimos uma janela no tempo para evocar discos que surgiram em cena há dez anos. Hoje recordamos “Red Carpet Massacre”, um álbum pelo qual os Duran Duran procuraram dialogar com novas tendências da pop, colaborando com Justin Tiberlake e Timbaland.

“Untrue”
(Hyperdub Records)

Se em 2006 a estreia de Burial justificou entusiasmo e atenção, um ano depois o seu segundo disco confirmou em em pleno a sua afirmação como um dos mais interessantes criadores musicais da primeira década do novo século. Mantendo firme o anonimato (dizia-se então que apenas se sabia que residia em Inglaterra), não como jogo para concentração de discurso mediático, antes como opção que visava destacar a música de uma história de vida concreta, mantendo intacta a sua identidade abstracta, Burial conseguiu em Untrue novos e espantos feitos plásticos sem que se tenha afastado dos métodos e formas que explorara no álbum de estreia.

Aqui se cruzam ecos das genéticas dubstep com um sentido ambiental, sobretudo textural, que muito deve também ao mais remoto, mas não menos influente, tom sombrio que brotou, via trip hop, de alguma produção inglesa de inícios de 90. As vozes são um elemento fulcral na definição dos acontecimentos em Untrue. Ali escutamos canções que não são canções, porque evitam a sua estrutura e formas. Antes, paisagens nas quais vozes (que não escondem provir de escola R&B) se perdem entre batidas, samples (Jean Michel Jarre é um dos “pilhados”), sugestões de melodias e cenografias.Untrue é uma colecção de pequenos ladrilhos que, juntos, pavimentam um espaço que, no fim, revela técnicas e ideias mais próximas da composição visual em artes plásticas do que nas habituais mecânicas de construção musical na idade do laptop.

Esta é uma música misteriosa, intrigante que, audição a audição, pede que nela nos percamos. A cada reencontro aprofunda-se uma intimidade, mas as sombras e mistérios na verdade nunca se dissipam, tal como a luz do dia nunca se acende a meio de uma viagem tardia, noite dentro, a meio de uma cidade adormecida. Na verdade, Untrue é como uma viagem como esta que se sugere. Noturna, desgastada, sonolenta, talvez narcotizada. E por isso, apesar de abstrata e anónima, descreve a geografia em que nasce. Ou seja, sem o parecer, uma polaroid turva da noite, fora de horas, na Londres num início de milénio. Um dos melhores discos do ano de 2007. E uma obra pela qual, um dia, o este tempo poderá ser recordado.

Okkervil River, “The Stage Names”
(Jagjaguwar)

Apesar de ser frequentemente reconhecida uma espécie de “norma pop” que aponta aos primeiros dois ou três álbuns de uma banda os seus mais marcantes momentos, as excepções existem. Muitas, é verdade. E uma pode ser apontada aos Okkervil River. Quem pensava que seria o seu terceiro álbum (Black Sheep Boy, de 2005) a garantir a sua inscrição na história da música da presente década, teve de repensar a ideia perante a chegada do quarto, The Stage Names. Editado em 2007 representou então o momento que mais justificava um olhar sobre a obra deste grupo de Austin (no Texas), elevando por aqueles dias a banda ao estatuto da primeira liga dos acontecimentos indie do ano em curso.

O disco levou ainda mais adiante os feitos na escrita de Will Sheff, sobretudo na capacidade em pensar as palavras como medula fundamental de uma canção. As imagens e reflexões que encontramos nestas canções são, de resto, ângulo certo para uma primeira abordagem ao álbum.

A faixa de abertura, Our Life Is Not A Movie or Maybe debate as diferenças entre os cenários banais da chamada vida real e o aprumo narrativo e visual das histórias que se contam no cinema. Assim se abre um disco que debate relações entre o mundo da arte e as vidas comuns que a criam e apreciam. E que oferece, a meio, um rebuçado pop para nerds musicais em The Plus Ones, um discorrer de referências de canções (como 96 Tears, 99 Luftbaloons ou TVC 15, a cada uma somando mais um…)… E, a fechar, outra iguaria para melómanos, integrando um “pedaço” de Sloop John B, dos Beach Boys, em John Allyn Smith Sails.

Duran Duran, “Red Carpet Massacre”
(Epic)

Madonna, na hora certa, recorreu a William Orbit ou Stuart Price. E Jonnhy Cash e Neil Diamond a Rick Rubin… Ou seja, bater à porta de um produtor de perfil afirmativo e marcante num tempo novo é opção lícita no mundo da música pop (e não só). Porém, ao saber-se das presenças de Timbaland, do seu colaborador regular Nate ‘Danja’ Hills e de Justin Timberlake (que co-assina e canta em dois temas), muitos logo suspeitaram que, como tantos outras figuras no presente, também os Duran Duran se vergariam à lei do produtor mais cotado do momento. Porém, o que Red Carpet Massacre mostrou em 2007 não era uma deferente prova de vassalagem, mas antes o resultado de uma partilha frutuosa, na qual as técnicas e temperos de Timbaland (e sua entourage) se entenderam com a lógica de funcionamento e o sentido de canção pop de uma banda de personalidade há muito vincada. Isto para, no final, fazer deste o melhor álbum dos Duran Duran desde os seus dias de glória de inícios de 80 (em concreto, o melhor desde Rio, em 1982). Isto em 2007, claro… Convenhamos que All You Need Is Now (2010) e Paper Gods (2015) foram ainda mais longe…

Na verdade Red Carpet Massacre não é um disco de ruptura, e muitas das ideias que escutamos nestas canções não reflectem mais que novas formas de abordagem, em diálogo atento com o presente, a velhas demandas já conhecidas na música dos Duran Duran. A sua relação com a música de dança remonta aos dias de Planet Earth, Girls on Film ou My Own Way, logo no seu ano de estreia discográfica em 1981. O interesse pela música negra (que pontua o disco) recorda-se, por exemplo, em Nororious ou Skin Trade

Red Carpet Massacre retoma ainda outra marca antiga dos Duran Duran: o gosto pelo desafio, uma certa ousadia formal que sempre fez com que o grupo, apesar do evidente sucesso mainstream, nunca tivesse abandonado as franjas da cultura alternativa que sempre tomou como referências. Depois de um regresso (mais mediático que musicalmente apelativo) em Astronaut, onde o grupo parecia mais atento ao jogo da cautela em terreno seguro, Red Carpet Massacre revelou verdadeiro entusiasmo e renovada vontade em reclamar um ceptro na pop que já teve na banda indiscutíveis donos. Pelo caminho ficou, aparentemente quase pronto, o álbum Reportage. Ao que parece mais dominado pelas guitarras… Será que alguma vez verá a luz do dia?

John Vanderslice, “Emmerald City”
(Basurk Records)

Mais um herdeiro da “escola” Neutral Milk Hotel, o norte-americano John Vanderslice estava há cerca de dez anos a chamar atenções com uma carreira a solo que juntava a arte da escrita de canções a uma demanda pelas formas finais com que estas se podem apresentar. Alguns talvez se recordem da polémica em tempos gerada pelo seu Bill Gates Must Die (logo na ocasião da estreia a solo, em 2000)… Em 2007 conheciam-no sobretudo como o proprietário de um estúdio por aqueles dias adoptado por nomes como os Death Cab For Cutie, Okkervil River ou Spoon e até mesmo pelo trabalho de produção que assinara em Gimmie Fiction, destes últimos. Mas, na verdade, a sua obra autoral merecia já mais destaque do que estas afinidades profissionais.

Depois de um conjunto de cinco álbuns nos quais explorara, sem evitar nunca a canção de autor, as potencialidades das cenografia lo-fi (electrónicas incluídas), mostra-se, ao sexto disco, inesperadamente despojado. O foco das atenções recaía assim sobre um conjunto de canções que, em apenas 38 minutos (o tempo ideal para um álbum), nos confirmavam em Vanderslice um magnífico contador de histórias.

O seu álbum anterior, Pixel Revolt, fora espaço de reflexão concreta das feridas deixadas pelo 11 de setembro e pelas consequências que os factos desse dia tiveram na vida da América desde então. Sem evitar pontuais incursões pela mesma memória traumática, Emmerald City é, contudo, um disco mais pessoal e, na verdade, quase autobiográfico (as canções compostas durante um processo, frustrado, e ainda não resolvido, de luta pela obtenção de um visto de residência para a sua namorada, uma francesa).

A arte de Vanderslice, além do evidente domínio de heranças musicais (que, além dos Neutral Milk Hotel, revelam a presença dos Beatles, Dylan e mesmo Bowie), reside numa rara capacidade em sugerir as histórias, lançar as ideias, e sair delas antes de as tornar óbvias. Quem dele não se lembra ou não conhece tem aqui um belo ponto de partida para entrar no seu universo.

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