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“Playing The Angel”: e eis que surge mais um autor em cena

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 2005, ou seja, 25 anos depois de lançada em disco a primeira gravação dos Depeche Mode, a banda acolhe pela primeira vez a presença de Dave Gahan como um autor. E convenhamos que as suas canções estão entre as melhores de um álbum que procurou retomar algum viço e músculo no som da banda.

Depois do negrume que dominara Ultra, que em 1997 ganhara forma como mais do que uma mera prova de vida a uma banda que procurava encontrar caminhos possíveis após a saída de Alan Wilder (que conduzira os destinos da “sonoridade” do grupo desde 1983) e dos desafios ao detalhe ensaiados no ainda mais requintado Exciter (2001), os Depeche Mode assinalaram o seu novo passo tentando reencontrar o músculo que habitara algumas das suas canções depois de, em finais dos anos 80, terem descoberto as potencialidades que os grandes palcos lhes abriam. Chamaram a estúdio Ben Hillier, que nos últimos anos tinha trabalhado como produtor e também como responsável pela mistura de discos de nomes como os Blur, Clinic ou Echobelly. Mas de profundamente novo o que juntavam na altura de apresentar os ingredientes era um novo compositor…

Depois de uma etapa inicial dominada pela escrita de Vince Clarke, soubera a Martin Gore a construção do corpo seguinte de canções, álbum após álbum moldando a identidade dos Depeche Mode a visões muito pessoais, pontualmente aceitando a bordo uma ou outra composição de Alan Wilder. No hiato de quatro anos que separou Ultra do novo álbum tanto Martin Gore como Dave Gahan editaram discos a solo. Mas ao passo que Martin Gore dedicou o alinhamento de Counterfeit 2 (tal como o fizera com o EP Counterfeit, lançado em finais dos anos 80) a uma coleção de interpretações suas de versões de canções de outros autores, já em Paper Monsters Dave Gahan fez questão de cantar originais seus (na verdade co-assinados com o guitarrista Knox Chandler). O vocalista fez assim questão de passar a ter uma “voz” criativa na escrita das canções dos Depeche Mode. E, tal como a Martin Gore cabiam até então as suas “faixas” cantadas, desde então os discos dos Depeche Mode passaram a ter também a presença de Dave Gahan num conjunto (igualmente reduzido) de momentos da sua autoria.

Entre os temas assinados por Dave Gahan conta-se Suffer Well, escolhido como o terceiro single retirado do alinhamento do álbum ao qual chamaram Playing The Angel, expressão retirada de um verso da letra de The Darkest Star (tema que fecha o alinhamento). Curiosamente Suffer Well é não só o mais sólido dos quatro singles extraídos deste álbum como traduz aquele que mais profundamente acolhe heranças “clássicas” da identidade dos Depeche Mode. I Want It All, a segunda das três composições de Dave Gahan, parece procurar o elo perdido entre os tons sombrios de Ultra e as filigranas de acontecimentos de Exciter. Nothing’s Impossible, logo a seguir, encerra da melhor forma a contribuição do vocalista como autor com um lote de temas que supera largamente o que mostrara no seu primeiro disco a solo e que em nada destoam das várias qualidades que podemos apontar às restantes faixas, todas elas assinadas por Martin Gore.

Apesar do “classicismo” de Suffer Well, do tom claramente nostálgico de Precious (o single de avanço), que pisca o olho a formas que os Depeche Mode haviam explorado entre os tempos de Music For The Masses (1987) e Violator (1990), e das escolhas igualmente acertadas de A Pain That I’m Used To e John The Revelator como singles (estes dois tentando recuperar o tal viço musculado dos noventas), o álbum acabou por revelar-se como o oposto de Exciter. Ou seja, se ao álbum de 2001 faltara melhor pontaria na seleção dos singles, em Playing The Angel não havia para além deles um corpo de temas do mesmo calibre bem um sentido de transversalidade no som que os aglomerasse como um corpo com uma identidade mais evidente e direcionada. Longe de ser um disco menor, Playing The Angel é apenas uma boa coleção de canções que se ouvem com gosto e cumprem o papel de alimentar uma nova digressão (o que, afinal, é hoje para muitos artistas o motivo para a edição de álbuns), mas que, como um todo, escutado de fio a pavio, gera um disco menos marcante.

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