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Ao que pode soar a cultura global em 2017?

Texto: NUNO GALOPIM

través da estreia em álbum de Sequoyah Tiger (um projeto lo-fi de Verona, em Itália) juntam-se ferramentas eletrónicas, gostos pelas culturas retro e indie com um disco que ultrapassa noções de tempo e de fronteira. A cultura global é isto.

Com mais de 40 anos de discos a pop feita com eletrónicas agradece que, de vez em quando, apareça em cena quem, com as peças do mesmo jogo (e periferias), acabe por lançar o rumo das coisas por caminhos com sabores diferentes. Não é assim tão raro que aconteça essa sensação de surpresa. E este ano conhecemos já um caso notável no álbum que assinalou a estreia a solo de Dave Depper, num registo que juntava um sentido de melancolia tão característico das escritas de diversos cantautores, usando contudo formas e sons dentro do universo pop feito com eletrónicas. Outra grande surpresa, digna de figurar entre o que de melhor o ano de 2017 nos deu a escutar, surge agora com um disco que nos chega de… Itália. Sim, porque nem só do eixo entre o Reino Unido e os EUA ou dos mais habitualmente falados universos francês, sueco ou alemão vive a pop que se faz pelo globo fora.

Sequoyah Tiger é o nome pelo qual se apresenta Leila Gharib, natural de Verona que, depois de primeiras maquetes reveladas há três anos e de um promissor EP revelado em 2016 confirma em pleno em Parabolabandit o que os dois singles lançados este ano já sugeriam: um verdadeiro festim de acontecimentos onde, ao invés de correr atrás dos sabores pop da moda, a música procura antes expressar o universo particular de quem a faz. Ecos de outros tempos, que piscam o olho a memórias antigas da cultura rock’n’roll mais retro (já dedicou uma canção a Paul Anka) e evidências de um gosto por desafios mais recentes lançados em terreno indie (com paradigma no rumo que levou os Animal Collective ao seu histórico Merriweather Post Pavilion) fazem parte de um corpo de referências que são assimiladas em canções genuinamente habitadas pelas fantasias da sua autora.

Parabolabandit sugere pontes possíveis para unir as ferramentas usadas pela pop eletrónica aos trilhos mais entusiasmantes da cultura indie atual (que é coisa a viver um tempo de dieta de ideias face ao que foram as grandes colheitas na primeira década do século). É uma música “caseira”, criada e gravada no estúdio que a própria Leila foi construindo e que representa parte de uma vontade em expressar ideias que passa também por trabalhos coletivos em cruzamentos com outras artes. Cantadas em inglês as canções têm pela frente um mundo à sua espera. Ecos de uma cultura cosmopolita, global, mais do que a procura de expressão de uma identidade local passam por aqui. Convenhamos que, mais do que italiana, esta é uma música de um tempo com outro sentido de espaço e identidade. E que, por detrás dos ecrãs de computadores e smartphones do mundo inteiro, há quem aqui encontre algo que fala para si. Independentemente do local registado no bilhete de identidade. Não se trata contudo de uma procura de laços por menores denominadores comuns. A expressão de uma verdadeira cultura global do século XXI passa por aqui.

“Parabolabandit”, de Sequoyah Tiger está disponível em LP, CD e nas redes sociais numa edição da Morr Music. ★★★★★


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