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A arte e o desafio de realmente florescer

Texto: ANDRÉ LOPES

Depois do documentário emocional que foi “Vulnicura”, Björk apresenta-nos agora o que entende por um espaço e tempo, distantes, onde a luz se sente de outra maneira.

O campo lexical que rodeia a noção de utopia apresenta elementos cuja distância aprendemos a declarar como interminável: a um contexto de perfeição idealizada, impõem-se uma adenda quase instantânea de que esse contexto é, por definição, impossível de alcançar. A relação entre a perfeição que assumimos arbitrariamente como objectivo último ou referencial de excelência e a noção de um plano de existência ficcional de tão formidável é, se paralela, nunca disjuntora. O que Björk consegue com Utopia não só se revelará como um dos momentos maiores numa carreira artística única, como um momento singular na música popular feita nos últimos anos. Por uma razão que transcende o propósito de um texto crítico: ao décimo álbum, Björk ‘cria’ no real sentido da palavra. As expressões sonoras que estes 70 minutos encerram contêm uma intemporalidade e um verdadeiro sentido de singularidade que não se faz por camuflar.

Com Arisen My Senses, o álbum surge de uma textura sonora quase geológica pelo sentido de magnitude que encerra, enquanto que em simultâneo se ouvem pássaros – num canto ora natural ora plástico. Harpa, voz, percussão digital surgem com irregularidade nos tempos, mas com um sentido de propósito absolutamente vincado. Na primeira canção de um disco chamado Utopia conseguimos ouvir uma das melhores produções da artista islandesa: os beats que se sentem enormes mas que não se encontram frontalmente na mistura de som são apenas um dos muitos detalhes que adornam um objecto igualmente massivo. A verdade é que à primeira audição esta é uma obra que se sente como exacerbante, mas também como um ciclo completo que deverá ser ouvido na sua totalidade. O mundo sónico que Utopia inclui encontra dois artistas cuja união criativa alcançou um patamar de indiscernibilidade que é fantástico de ouvir. Faixa após faixa, é quase visível a forma como Arca e Björk se incentivam mutuamente numa conspiração que visa sublinhar as características que de melhor forma enquadram os respectivos repertórios. As coordenadas do desafio, da busca pelo novo, trouxeram um uma estreia instrumental à paleta sónica de Björk, tendo sido inclusivamente a partir da escrita desses mesmos arranjos que estas canções ganharam forma. Conferem um sentido de bucolismo que coexiste pacificamente com as arritmias digitais com as quais dialogam como se de uma relação orgânica, ou sequer óbvia, se tratasse.

À distância, Utopia consegue parecer o disco no qual Björk explicita os vértices principais da sua expressão criativa: os arranjos de cordas que ouvimos desde Post (1995) regressam para ajudar a construir uma atmosfera pós-humana, um qualquer meio natural luminoso ainda que wachowskiano. A faixa título é disso o exemplo mais flagrante, com violoncelo, arpa, baixo e flauta a gerarem um clima quase pastoral, no sentido mais futurista que o mesmo possa ter. As electrónicas – e os beats – do mesmo álbum, bem como a harpa escutadas em Vespertine (2001) surgem novamente mas em muito pouco se repetem: o propósito é mais claro e a liberdade de execução também.

Nenhuma das canções tem um formato passível de traduzir pretensões comerciais, mas Utopia é para além disso um trajecto sinuoso, facto que Body Memory reflecte com precisão. A voz continua a ser guia (como em Black Lake, na situação inversa) deixando-se estender por via de samples, sintetizadores e outros elementos digitais que devidamente se ausentarão para dar lugar de destaque ao cuidado arranjo para coro que Björk escreve aqui, traçando um momento singular no seu repertório. Como o exacto oposto de um qualquer cliché como uma crise de meia-idade, Utopia representa – enquanto nos rouba toda a atenção – uma renovação espiritual, emocional e (querendo-o) artística.

Dos stacattos de Courtship a todo o arranjo de Paradisa, e não deixando para trás o momento sísmico que termina Loss, realiza por completo a fantasia vulcânica prometida em Mutual Core de Biophilia (2011). Haverá pouco por aqui a quem se destina a aguardar por um regresso às sensibilidades pop que há muito deixaram de ser prioridade na música de Björk, tal como no seu restante tecido expressivo: as experiências gráficas que tem realizado com vídeos a 360 graus, o pioneirismo com telediscos em realidade virtual, e a sua rota estética igualam a inventividade musical que nos tem dado. Felizmente, o que nos é apresentado mantém a qualidade que desde cedo marca as composições de uma das figuras que garantidamente marcarão a década. – e Utopia eleva-a por via de uma densidade que floresce a cada audição.

“Utopia” de Bjork está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da One Little Indian ★★★★★

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