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Ambientes do nosso tempo

Texto: NUNO GALOPIM

Dois anos depois do díptico “Morning/Evening” o projeto pessoal do músico Kieran Hebden (Four Tet) volta a apresentar em “New Energy” uma proposta de desenho ambiental que sugere marcas do nosso aqui e agora.

Assinalaram-se em 2017 os vinte anos sobre o momento em que, assinado como 4T, o britânico Kieran Hebden deu os primeiros passos na construção de uma discografia que, logo com os primeiros álbuns para a Domino Records – Pause (2001) e Rounds (2003) – deixou clara a vontade em explorar uma ideia de construção musical a partir da moldagem de fragmentos. A obra de Hebden afirmou-o desde logo como um esteta com identidade bem demarcada entre os muitos autores que procuravam novos caminhos para a música eletrónica na aurora de um novo milénio.

Entre um volume assinalável de colaborações e remisturas para outros artistas, a sua obra em nome próprio continuou a ensaiar caminhos, a definir possíveis trilhos, até que há dois anos, o díptico Morning/Evening sugeria, num álbum feito com apenas dois temas (um para cada face de um LP em vinil) a chegada a um terreno mais próximo dos paradigmas do que se entende por “ambient” mas que ao mesmo tempo aceita tanto a presença dos flirts com uma presença mais marcada com os ritmos que já procurara abordar e, ao mesmo tempo, uma nova expressão das filigranas de pequenos acontecimentos, numa construção ainda interessada na presença de sons do quotidiano embora já distante do maior protagonismo dos glitches de outrora, acolhendo inclusivamente a presença de elementos tímbricos que ajudam a definir noções de geografia ou cor aos cenários que ali sugere… Ao escutarmos o novo New Energy não podemos deixar de reconhecer que está ali, nesse disco de 2015, o ponto de partida para as propostas que agora nos revela.

Pensado segundo uma lógica mais “convencional” de ordenação de composições curtas, sem vincar de modo tão evidente uma ideia de música-programa como a que Morning/Evening descrevia o ciclo de um dia, New Energy é uma proposta de continuação de desenvolvimento de ideias que ali fixou de forma invulgarmente brilhante. Sem procurar orientar a composição a caminhos dominantes (apesar de demonstrar tanto uma preferência pelas formas do tecno minimal e pelas estéticas ambiente), Kieran Hebden desenha entre o alinhamento de New Energy – e aqui a energia é mais um sopro de ânimo do que um desafio aos músculos para que invadam a pista de dança – uma álbum que cruza espaços (com sons que vão do mundo “natural” a bleeps dos novos smartphones), climas e estados de alma, numa sucessão de quadros que, embora mais abstratos do que os que escutávamos em Morning/Evening, aprofundam as ideias que ali ensaiou… No bom caminho, portanto.

“New Energy”, de Four Tet, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Text Records. ★★★★

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