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O sorriso do Zé Pedro

Texto: NUNO GALOPIM

Foto: Rita Carmo/BLITZ

Desde que trabalho como jornalista não foram poucas as vezes em que, na hora de despedidas, a escrita obrigou a um esforço de ordenamento da razão em momentos em que a emoção nos comanda. E quanto mais próximos de nós são aqueles de quem nos despedimos, mais essa tarefa se torna difícil. A notícia, ontem, da morte do Zé Pedro (o “do” é mesmo “do” e não o mais formal “de”, porque com ele era assim mesmo) confrontou certamente com esse mesmo choque os muitos que, nos jornais, na rádio, na televisão e plataformas online, lidaram de perto com um homem sempre generoso, atencioso e de sorriso invariavelmente desenhado no rosto, que cruzou quase quatro décadas das nossas vidas.

Pensei umas quantas vezes antes de lançar os dedos sobre este teclado. Escrevo? Não escrevo? Tal como o António Sérgio, seria um esforço de convocar muitas memórias demasiado próximas.

Não faltarão certamente hoje, e nos próximos dias, bons textos que evoquem devidamente o trabalho do músico nos Xutos & Pontapés ou em outros projetos e colaborações e aquela figura que se tornou num ícone maior do rock feito entre nós. Não era o nosso-qualquer-coisa lá de fora. Era o Zé Pedro. Único.

Lembro por isso, além dessa obra que ouvimos em disco e vimos nos palcos, o homem que gostava de falar de outros músicos. Porque não havia ocasião em que me tivesse cruzado com o Zé Pedro em que não acabássemos a falar ou de discos bem recentes ou de memórias de canções e vivências com música (sempre) pelo meio. Com ele (tal como com o António Sérgio), escutando-o, viajei inúmeras vezes ao berço então pouco visível da agitação punk na Lisboa de finais dos setentas. E escutei histórias do remar, remar… De uma vontade em abrir alas para movimentações que, nos oitentas, deram finalmente visibilidade definitiva a uma cultura jovem em Portugal. E aí os Xutos & Pontapés (e a presença sempre bem evidente do Zé Pedro) tiveram uma voz determinante, lançando sólidas bases para uma vida longa que fez do grupo um raro caso de transversalidade e familiaridade entre nós, criando um corpo de canções que nos habita.

O Zé Pedro não sabia dizer que não. Se havia uma sessão de cinema para apresentar, um debate para conversar, um programa de rádio ou discos sobre os quais falar, lá estava. Sempre pronto a partilhar com os outros o entusiasmo que tinha pela música. E gostar de música é isso mesmo. A partilha. A identificação com os outros pela mais universal das linguagens.

Ficam as memórias das canções de que falávamos. E aquele sorriso e gargalhadas que eram únicos. Até sempre, amigo.

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